artigo acadêmico

Os Nadinhas de Assis Brasil e o processo de letramento

Daíse Cardoso – UESPI[1]



RESUMO

Este artigo analisa como a obra Os Nadinhas, de Assis Brasil, ilustra o processo de letramento. Busca argumentar o fato de que uma criança pode ser tanto alfabetizada quanto letrada mesmo fora do ambiente escolar, contanto que a mesma seja orientada e motivada para tal procedimento, esclarecendo as diferenças entre letramento e alfabetização de acordo com definições de vários teóricos da área.

PALAVRAS-CHAVE: Os Nadinhas. Letramento. Alfabetização.

 
 

ABSTRACT

This article examines how the work Os Nadinhas, of Assis Brasil, illustrates the process of literacy. Search argue the fact that a child can be both initial reading instruction as literate even outside of school, provided that it be driven and motivated to do so procedure, clarifying the differences between literacy and initial reading instruction in accordance with definitions of various theorists in the area.

KEYWORDS: Os Nadinhas. Literacy. Initial reading instruction.

 



Introdução

 

O presente artigo tem por objetivo analisar as manifestações de letramento ilustradas na obra infantil Os Nadinhas de Assis Brasil. Secundariamente, busca-se definir este processo de aprendizagem alfabetizadora, compreender a importância da intertextualidade e interdisciplinaridade no processo de letramento e analisar os métodos de alfabetização que o autor descreve, mesmo não tendo o objetivo explícito, já que não se trata de um teórico da educação, mas sim de um autor de obras literárias, com as quais contribui para um alargamento do campo da leitura.

            Assim, busca-se responder a algumas indagações para se atingir os objetivos delineados: quais os métodos de letramento o autor Assis Brasil representou em sua narração? Como o autor ilustra o processo de alfabetização e desenvolvimento cognitivo?

            Bandura (2010) – autor das teorias de aprendizagem social que têm a sua origem no comportamentalismo – parte do princípio de que o comportamento é influenciado pela repetição dos atos e, conseqüentemente, aprendemos ao observar os outros. A observação de modelos exteriores acelera o processo de ensino-aprendizagem. Assis Brasil reafirma as teorias de Bandura, colocando um personagem que inicia seu processo de alfabetização por observar, ter um modelo em casa, o qual no decorrer da história apresenta-se como grande mestre na arte de educar.

 

Concepções de Letramento

 

            Letrar é mais que alfabetizar, é ensinar a ler e escrever dentro de um contexto em que a escrita e a leitura tenham sentido e façam parte da vida do aluno. Já não basta aprender a ler e escrever, é necessário mais que isso para ir além da alfabetização funcional (denominação dada às pessoas que foram alfabetizadas, mas não sabem fazer uso da leitura e da escrita). Letramento é o sentido mais amplo do termo alfabetização; o letramento, de acordo com Soares (2003), designa práticas de leitura e escrita.

A inserção do indivíduo no mundo da escrita se dá pela aprendizagem de toda a complexa tecnologia envolvida no ato de ler e escrever. Além disso, o aluno precisa saber fazer uso e envolver-se nas atividades de leitura e escrita. Ou seja, para inserir-se nesse universo do letramento, ele precisa apropriar-se do hábito de buscar um jornal para ler, de freqüentar bibliotecas, livrarias e, com esse convívio efetivo com a leitura, apropriar-se do sistema de escrita. “É preciso compreender, inserir-se, avaliar, apreciar a escrita e a leitura” (SOARES, 2003). O letramento compreende tanto a apropriação das técnicas para a alfabetização quanto esse aspecto de convívio e hábito de utilização da leitura e da escrita.

Soares (2003) afirma:

 

No Brasil as pessoas não lêem. São indivíduos que sabem ler e escrever, mas não praticam essa habilidade e alguns não sabem sequer preencher um requerimento. Este é um exemplo de pessoas que são alfabetizadas e não letradas. Em outros casos, quando não alfabetizada, a criança finge ler um livro, mas de fato só compreende em contextos orais, ou seja, verbalização do pensamento.

 

Com esta fala, Soares exemplifica com clareza a distinção entre letramento e alfabetização. Ao mesmo tempo é fundamental entender que se tratam processos indissociáveis e que têm as suas especificidades.

           Uma alfabetização, para que tenha intenção de letrar, é necessário que o aluno seja inserido no processo de construção do conhecimento, ao tempo em que tenha contato com material escrito de qualidade e diversificado.

Teberosky e Ferreiro (1985) afirmam que é responsabilidade do educador promover situações em que o educando seja capaz de interagir com a escrita e assim desenvolvê-la.

 

Se o professor é capaz de oferecer uma ajuda efetiva quanto à diversidade das situações de uso, a criança poderá aprender, por meio desse uso, as regras de funcionamento da linguagem escrita. (1985, p.12)

 

Moura (1999) apóia as concepções de Ferreiro e Teberosky, reconhecendo que a visão de ambas sobre o processo de aquisição do sistema da escrita auxilia na atividade de alfabetizar, entendendo a complexidade da escrita e toda a sua gama social.

Moura (1999) reafirma a importância do letramento para o indivíduo social:

 

As formulações de Ferreiro mudam radicalmente a visão sobre a alfabetização, levando o professor a compreender que o importante na alfabetização inicial é a preocupação com seus aspectos construtivos, sua natureza e função social.

 

Nessa perspectiva, Philippe Perrenoud (1998) enfatiza a importância de se trabalhar o letramento na escola a fim de desenvolver competências no aluno, para que em qualquer situação ele saiba desenvolver suas atividades com eficácia e habilidade. Entre as competências ligadas diretamente ao processo de letramento, podemos citar:

-Organizar, administrar e dirigir situações de aprendizagem;
-Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação;
-Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho;
-Trabalhar em equipe;
-Utilizar novas tecnologias;
-Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão;
-Administrar a própria formação;

 

Tais competências, mesmo intuitivamente – pelo fato de não ter escrito a obra com a intenção de explorar o teor pedagógico ali contido–, Assis Brasil ilustrou de maneira clara e objetiva nas ocasiões em que as situações de letramento foram narradas em Os Nadinhas.

 

O letramento ilustrado em Os Nadinhas

         

         Francisco de Assis Almeida Brasil é romancista, cronista, crítico literário e jornalista, autor, entre mais de uma centena de publicações, da obra infanto-juvenil Os Nadinhas, publicada no ano de 1995.

         Na obra, Brasil relata as memórias de um menino, chamado Lucas, em seus primeiros contatos com o mundo da leitura e da escrita. A criança se encontrava no período Pré-operatório (5 aos 7 anos), fase em que desenvolve a capacidade de substituir um objeto ou acontecimento por uma representação (PIAGET, 1982). Essa substituição é possível, conforme Piaget, devido à função simbólica, característica desta fase. Assim, este estágio é também identificado como o estágio da Inteligência Simbólica.

Contudo, Macedo (1991) lembra que a atividade sensório-motor não está esquecida ou abandonada, mas refinada e mais sofisticada, pois se verifica que ocorre uma crescente melhoria na aprendizagem, permitindo que a criança explore melhor o ambiente, fazendo uso cada vez mais dos sofisticados movimentos e percepções intuitivas.

A criança deste estágio:

·                É egocêntrica, centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro.

·                Não aceita a idéia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase a dos "porquês").

·                Já pode agir por simulação, o "como se".

·                Possui percepção global sem discriminar detalhes.

·                Deixa-se levar pela aparência sem relacionar fatos.

No início da narrativa, Brasil situa a personagem em seu contexto familiar. Lucas mora com o avô (Mateus, um jornalista) e sua mãe. O pai já é falecido. Sobre os cuidados maternos, ainda sem freqüentar a escola, por opção da mãe, o personagem deseja entender por que o avô sempre consulta o “livrão” (nome dado ao dicionário pelo personagem). Para tanto, sempre que é possível posiciona-se atrás da porta para observar a atitude desenvolvida pelo avô:

 

- às vezes eu olhava pela fresta da porta entreaberta e lá estava ele, a barba branca debruçada sobre a escrivaninha, rabiscando uns papéis com a sua longa e bonita pena de pato... (1995, p. 5)

 

Como característica da fase do desenvolvimento cognitivo, Lucas, sempre que tinha oportunidade, questionava sobre os atos do avô e quando poderia fazer o mesmo; assim, o avô decide alfabetizá-lo em casa, por perceber o interesse do neto em aprender a ler e escrever.

 

- Na hora do jantar perguntei ao vovô o que tanto ele escrevia. (idem, p. 6)

- E quando eu estudar posso mexer naquele livrão da sua escrivaninha?...(idem, p. 10)


Para alfabetizar o neto, Mateus compra uma cartilha, hoje obsoleta para muitos educadores. No entanto, o problema não está na cartilha, mas em como usá-la: deve-se evitar que os alunos simplesmente repitam as letras. Contudo é importante lembrar o valor nem sempre reconhecido da memorização e da repetição, métodos entre outros utilizado por Seu Mateus no processo de alfabetização.

 

 

- O vovô usava uma folha grossa de papel, com um buraquinho no meio e ia me mostrando as letras... o papel era para tampar as letras anteriores...assim ficaria mais fácil. (p. 12)

  

Lucas já identificava as letras, agora precisava aprender a associá-las. Neste ponto ele encontrava dificuldades para compreender como duas e/ou três letras produzem apenas um som. Ferreiro (1985) denomina este fenômeno como relação grafo-fônica, ou seja, a criança inicia o processo de alfabetização a partir do momento que ela é capaz de diagnosticar a sonoridade das letras em relação à escrita e à pronúncia.

Para que Lucas não apenas identificasse as letras em diferentes contextos, Mateus chamou-o e fez com que o menino aprendesse a combinação das letras e o significado de sua combinação, compreendendo assim o uso contextualizado da palavra citada.

 

- Ele me beliscou, com lágrimas nos olhos eu disse: - Ai!

- Pois é, a combinado com iai. (idem, p. 13)

 

Para a adaptação adequada ao ato de ler e escrever, é preciso compreender, inserir-se, avaliar, aprender a escrita e a leitura. O letramento compreende tanto a apropriação das técnicas para a alfabetização quanto o convívio e hábito de utilização da leitura e da escrita (SOARES, 2003).  

 

- E assim por meio do convívio com palavras meu aprendizado foi rápido (idem, p. 16)


Ao longo da narrativa, Lucas mostra ser uma criança que está sempre procurando aprender o significado das palavras desconhecidas, sempre com o dicionário por perto. Em uma de suas procuras, Lucas encontra algo que é a origem do título do livro Os Nadinhas, e é a partir desta descoberta que ele passa a desenvolver a imaginação simbólica descrita por Piaget (1982) como característica da idade.    

 

 

- Eu acabava de tomar posse de uma espécie de segredo os nadinhas (idem, p. 18)


- Continuei a observar os nadinhas e aprender o significado das casas em que eles moravam (as palavras)... assim adquiri logo um bom vocabulário (idem, p. 29)


Agora Lucas já era formador de seu próprio conhecimento, apropriando-se e aprimorando o que Howard Gardner (1995) definiria como a inteligência lingüística, associada à habilidade de expressão oral. Neste processo, a intuição e a descoberta são elementos fundamentais para a construção do conhecimento (GARDNER, 1995). 

 
 

- Um dia mostrava para minha mãe eu lendo meu primeiro livro de história O Passarinho Azul (idem, p. 33)


- A lupa me dava um visão melhor dos nadinhas...comecei a imaginar como eram (idem, p. 53)


- Vovô nunca tinha me falado de Dom Quixote, já tinha falado de Alice, Robinson Crusoé, Viagens de Gulliver... (idem, p. 56)



A intertextualidade presente na obra faz com que o processo de letramento seja objetivo, pois é perceptivo que o avô de Lucas sempre o inseria em universos diversificados de leitura, ou seja, o menino já interagia com o mundo da leitura e seu cotidiano, o que segundo Lev. S. Vygotsky (1995) é a questão central, pois a aquisição do conhecimento é dada pela interação do sujeito com o meio.

 

- Uma das vantagens de ler, de procurar o significado das palavras, é que a imaginação se abre com a luz...(idem, p. 68)

 

A conscientização da importância da leitura é definida por Phillippe Perrenoud como o desenvolvimento das competências operacionais mentais complexas, subtendidas por esquemas de pensamento. A forma de realização das competências são chamadas de habilidades (PERRENOUD, 1998).  

 

- Descobri que ver os Nadinhas nos livros, dicionários é privilégio só das crianças, pois quando cresci e fiquei adulto não mais os vi...(p.72)


Certamente, os Nadinhas eram seres imaginários criados como estratégia para tornar mais mágica ainda a descoberta do mundo da leitura. Quando adultos, muitas vezes nossas leituras são meramente objetivas, para fins pragmáticos, o que não nos permite mais “visitar” Os Nadinhas. 

 

Considerações finais

 

Ao concluirmos este artigo, percebemos a importância do letramento para a formação cognitiva do individuo, levando em consideração a maneira como Assis Brasil demonstra em sua obra como o processo de alfabetizar independe de estar inserido em uma instituição educacional. O que é primordial para tal procedimento é o interesse do educando, a motivação causada nele pelo educador.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BANDURA. Albert. Teoria da aprendizagem social. Disponível em: <http//www.alunos.di.ubi.pt/~a14676/psicologia//> acessado em 19 de junho de 2010.

BRASIL. Assis. Os Nadinhas. São Paulo: Scipione,1995.

CAMPELO, Maria Estela Costa Holanda. Alfabetizar Crianças: Um Ofício, Múltiplos Saberes. Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação. Natal: UFRN, 2001. 256 p.

DURANTE, Marta. Alfabetização de Adultos: Leitura e Produção de Textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.113 p.

FERREIRO. Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez/ Autores Associados, 1985.


__________. TEBEROSKY, Ana Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

GARDNER, Howard Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Howard Gardner; tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli Elisa D. Afonso. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.

MACEDO. Alessandra Aspasia Dantas de. Psicogênese da Língua Escrita: As contribuições de Emília Ferreiro à alfabetização de pessoas jovens e adultas. Disponível em: http//www.anped.org.br//<acessado em 01/12/2009.>

MOURA. Tânia Maria de Melo. A prática pedagógica dos alfabetizadores de jovens e adultos: Uma contribuição de Paulo Freire, Emília Ferreiro e Vygotsky. Maceió. Disponível em: http//www.anped.org.br//<acessado em 01/12/2009.>

PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1982.

PERRENOUD. Philippe. Dez Novas Competências para Ensinar. Ed. Artmed. 1998.

SOARES. Magda. Letramento, Diário do Grande ABC em 29 de agosto de 2003. Disponível em: http//www.e-educador.com// <acessado em 01/12/2009.>

VYGOTSKY, Lev.S. Obras Escogidas, Vol. III. Madrid: Visor, 1995.


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[1] Especialista em Língua Portuguesa / Graduada em Letras-Português pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Graduanda em Pedagogia pela UFPI. E-mail: daiseoliveira@hotmail.com



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]
 
 
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