prosa

Carneirinho

Noemi Jaffe

 

 

 

Meu pai o comprou por apenas dois suz
O cordeiro! O cordeiro!
Meu pai o comprou por apenas dois suz
Assim conta a Haggada

Astuto, o gato ficou à espreita
Ele atirou-se sobre o cordeiro e o devorou
O cão que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro
Que meu pai comprou por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro!

Então veio o bastão
E se abateu sobre o cão
Que mordeu o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Ele o comprou por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro!

Então veio o fogo e consumiu o bastão
Que abateu o cão
Que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro!

Então a água veio apagar o fogo
Que consumiu o bastão
Que abateu o cão
Que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro

O boi que passava por ali bebeu a água que apagou o fogo
Que queimou o bastão
Que abateu o cão
Que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro

Veio o açougueiro que matou o boi que bebeu a água
Que apagou o fogo
Que consumiu o bastão
Que abateu o cão
Que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Então veio o Anjo da Morte que matou o açougueiro
Que matou o boi que bebeu a água
Que apagou o fogo
Que consumiu o bastão
Que abateu o cão
Que estrangulou o gato
Que devorou o cordeiro que meu pai comprou

Por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro


O cordeiro, o cordeiro, onde está o cordeiro sobre o qual o gato astuto que ficava à espreita atirou-se, devorando-o? Gato que fica à espreita, atira-se e devora o cordeiro que o pai comprou por dois suz. O cordeiro não fica à espreita, não se atira e nem devora. Deixa-se engolir pelo gato. O pai é menos astuto ainda; compra o cordeiro por dois suz e deixa o gato comê-lo. Suz, onde está o suz, este dinheiro que compra cordeiros mansos como o pai, que permite que o cordeiro seja devorado? Cordeiros, pais, suz e tempos, gatos astutos se atiram sobre eles. Gato, saia da espreita. Isso não é lugar para se ficar. Fique de frente, olhe nos olhos do cordeiro, enfrente-o e sua mansidão de cordeiro comprado pelo pai. Gato, onde fica a espreita? Num lugar entocado, onde ninguém te vê, em ângulo oblíquo; não num lugar visível, reto, onde os olhos se encontram e a mansidão se pode ver. Astuto é de lado, é em negativo, é pelo espelho, como Perseu diante da Medusa. Os olhos da Medusa ou os olhos do cordeiro, tanto faz. São olhos para serem olhados de frente; são olhos que matam pela retidão. O gato se atira e devora. Num mesmo lance de dupla ação, ao atirar-se imediatamente devora, sem o tempo de deixar que o cordeiro ou o pai percebam o que está a acontecer. No tempo da astúcia não se compram cordeiros com dois suz. Tudo isso conta a Hagaddá, que é um livro de histórias. Hagaddá significa narrar, expor, ou melhor, narrado, exposto, ou melhor, lugar para se narrar e se expor. Nesse lugar para se narrarem histórias conta-se a história do pequeno cordeiro comprado pelo pai por apenas dois suz. Este cordeiro que será atacado e devorado pelo gato é o princípio da história que se narra. O princípio que, logo no princípio, morre devorado. E a ele sempre se volta. àquele que não existe mais. Ninguém mais existe, será visto na continuidade da história, mas o cordeiro comprado pelo pai por apenas dois suz é o primeiro que deixa de existir. Nada se fala sobre o pai. Mas sei que o pai é manso como o cordeiro, pois precisava comprá-lo e certamente gastou todo dinheiro que tinha, que era pouco, mas foi o suficiente. E vem o cão e estrangula o gato astuto que devorou o cordeiro manso. O cão não devora; estrangula. Como o cão estrangula o gato? Estrangula-o porque o vê atacar o cordeiro e devorá-lo? É por vingança, gula ou necessidade ancestral que os cães matam os gatos? O cão não é astuto como o gato nem manso como o cordeiro. O cão age por necessidade externa, hagádica; ele obedece a uma ordem silenciosa e imperiosa. O estrangulamento do gato pelo cão é uma ordem da história, uma vingança narrativa pelo gato ter devorado o cordeiro de apenas dois suz, comprado pelo meu pai. Se eu fosse um cão também estrangularia este gato; eu o atacaria por trás e amarraria seu pescoço pequeno de gato e apertaria até que ele sufocasse sem ar. Mas não sou um cão e não faria isso, nem com este gato. O cão soube, ao estrangular o gato, que cumpria assim seu dever na história e preparou-se para, também ele, responder ao seu papel de morrer por ter matado o gato que devorou o cordeiro. Então veio o bastão e se abateu sobre o cão que mordeu o gato. Desta segunda vez, o cão morde, não mais estrangula. Ou talvez o tenha mordido depois de estrangulá-lo. Ou ainda, a história não tem necessidade de repetir com precisão o que tinha sido dito anteriormente. Antes, é dever intrínseco das histórias mudar os fatos, mesmo que tenham sido contados na própria história que se está a contar. Por métrica ou por distração, ou ainda porque é uma hagadá, um livro tão ancestral que pode ter incorporado numa só história versões que foram contadas de formas diferentes ao longo de séculos e séculos. Num século, ou numa família que reconta a hagadá, o cão estrangula. Em outra mesa, em outro país, em outro tempo, o cão morde. E então numa versão longínqua, o cão estrangula numa estrofe e morde na outra. É assim que é e deve ser assim. É preciso que todos se vão, porque a sequência deve continuar. Se, com uma mordida, o cão não mata o gato, o bastão não poderá abater o cão. E o bastão o abate. O bastão surge espontaneamente e abate o cão. O bastão veio. É um bastão sagrado, empunhado por mão invisível ou nenhuma mão; pode ter sido um bastão milagroso, pois é um bastão que abate, não bate nem espanca. Tampouco se trata de um pau ou toco. E tudo volta ao cordeiro, culpado e vítima de toda a matança que se segue, por enquanto o único, além de meu pai, que não devorou, estrangulou, mordeu nem se abateu sobre ninguém. Porque meu pai e o cordeiro deram início, se nem predadores eram, a toda esta guerra? Porque eram mansos. São os mansos os responsáveis pelo deflagramento das sequências intermináveis de matanças. Pois veio o fogo e consumiu o bastão. O fogo não consome por vingança nem para fazer parte da sequência; ele consome porque é de sua natureza consumir, inclusive a si próprio, ou mesmo até, ele consome para consumir-se e é por isso que tantos o comparam à paixão, fogo dos homens. O que a hagadá conta aqui é que mesmo quando não se intenciona prosseguir com as mortes, elas ocorrem; por mão humana, animal ou natural. Se não há um cão a estrangular nem um gato astuto a devorar, haverá um fogo a consumir. E onde está o cordeirinho a esta hora, quando já é o fogo a consumir o bastão, que já se encontrava tão distante da primeira vítima? O cordeiro já está engolido e devorado por um assassino que agora é também vítima e que de astuto já não tem mais nada. O fogo que consumiu o bastão pode ter também consumido o cão em cujo estômago possivelmente estava o gato com o cordeiro devorado. E, consumindo, o fogo faz tudo em cinzas e a si próprio se extingue. O fogo não se transforma em cinzas, apenas desaparece ao fazer revolver as coisas ao seu estado de terra. Mas conta a canção que, antes de o fogo transformar o bastão em cinzas, a água o apagou. Pode ser que isto tenha ocorrido na metade do processo e o fogo não tenha tido o tempo necessário para cumprir integralmente sua função. Pode ser que o cão e o bastão tenham restado meio queimados, largados na estrada onde tudo isso deve ter acontecido. A estrada por onde meu pai passava, trazendo de volta o cordeiro que havia comprado na feira, perto de minha casa, por apenas dois suz. Deve ter sido em um momento quando meu pai se agachara ou se distraíra e o gato astuto o viu, atirou-se sobre ele e o devorou, antes que meu pai pudesse fazer alguma coisa. Tampouco sei onde está meu pai agora, que enquanto toda essa sequência acontecia não apareceu mais na canção, a não ser para repetir o fato de que tenha comprado o cordeiro. Pois essa sequência toda pode não ter se passado, e creio mesmo que não se passou apenas ao longo desta pequena canção. Creio que se passou ao longo de séculos e milênios e ainda até que vem se passando e está a se passar agora neste momento. Assim, meu pai não está mais aqui, mas estará para sempre, sempre comprando o mesmo cordeiro. O boi, um boi que passava por ali bebeu a água que tinha apagado o fogo. E em o boi beber a água, assim eliminando-a, como ela havia feito com o fogo, a morte serviu não a si mesma, mas também à vida do boi. Pois que nesse caso o boi não exatamente eliminou a água, mas transformou-a em boi, como talvez sejam todas as mortes, inclusive a do gato que devorou o cordeiro. Sem saber que a água tinha consumido o fogo que queimara o bastão que abatera o cão que estrangulara o gato que devorara o cordeiro, o boi a bebeu, retornando, quem sabe, à inocência do cordeiro; redimindo-o. O boi não quis matar a água; matou-a ao se sustentar. Juridicamente, faz-se a diferença entre o dolo e a culpa, o que significa que, no imo da lei, a intenção conta. Há quem diga que o inferno está repleto de bem-intencionados. Nada existe de mais pavoroso do que esse ditado que nem o inferno merece. Mas veio o açougueiro, o primeiro humano da canção, e matou o boi que nada fazia além de beber a água. O açougueiro, o fornecedor de carne, o abatedor; na hagadá, o abatedor sagrado, que conhece os pontos de corte e que sacraliza a carne e o boi ao matá-lo. O açougueiro é um sacrificador sacrificado, pois que ninguém mais gosta ou quer ser açougueiro. Açougueiro é nome feio, diachento, que traz maus augúrios. Pois quem o mandou matar o boi? Mas se ele não o matasse, quem o mataria, se ele só bebia água? E mesmo assim o Anjo da Morte matou o açougueiro. O Anjo da Morte vem e nos mata a todos, açougueiros ou não, bois ou cordeiros, gatos e estranguladores. O Anjo da Morte não olha para quem mata, não escolhe, passa e extermina. Foi, na verdade, o Anjo da Morte que matou todos os personagens dessa pequena história, que é a mesma que a grande história de todas as histórias. As grandes e as pequenas são todas as mesmas, a mesma história. No início dela está o cordeiro e meu pai e, no final, o Anjo da Morte. Meu pai, que mora só na minha lembrança, foi cortado pela serra do Anjo, senão não seria em minha lembrança que ele moraria, mas estaria na feira comprando ainda mais um cordeiro. Se o gato não tivesse se atirado sobre o cordeiro, no início da canção, teria toda esta sequência acontecido? Me disseram que essa pergunta é a que eu não posso fazer.
 

 

 

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Noemi Jaffe é professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, literatura estrangeira, poesia, artes visuais e música popular brasileira. Crítica literária do jornal Folha de São Paulo, desde 2006, é autora dos livros Folha Explica Macunaíma (Publifohla, 2001); Ver Palavras, Ler Imagens (Global, 2003); Crônica na Sala de Aula (Itaú, 2006); Todas as Coisas Pequenas (Hedra, 2005) e Do Princípio às Criaturas (USP, 2008). É também organizadora da Antologia de Poemas de Arnaldo Antunes (Global, 2010). Em fevereiro de 2010, seu projeto "Pegada - Duas Histórias" foi selecionado pelo Premio Petrobras Cultural, na área de Literatura.

 
 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]


 
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