poesia

três poemas de

Viviane de Santana Paulo

 


 

 

gostei de te ver ontem    na saída do metrô    a tarde ainda puxando

o carrinho de sol   uns transeuntes pra lá e pra cá    borboleteando nós dois parados    mastigando a surpresa como um chiclete

de hortelã    eu não precisaria ter dito               há quanto tempo!   

era pra ter deixado o tempo parecer um mero lago

     nada de oceano      de rio sábio    nem a solidão esta ilha    indecifrável     nem o medo esta corrente gelada nos tornozelos   

era pra ter deixado o tempo não ser mais  do que a meteorologia

das relações          os cúmulos-nimbos de alguns aborrecimentos

pelos atrasos diários    os cirros esticando os lábios   

bronzeando a pele  

uma garoa aqui e ali atrapalhando algum plano de sair      nada deste um-dia-atrás-do-outro estrangulando a minha jugular    este sentir falta de ti    como a água nas brânquias

a inquietação como as tormentas imprevisíveis    os tremores

nas mãos carregadas     de vazio    era pra deixar o tempo parecer

uma mera poça d'água quase seca       mas meus olhos estenderam

as fortes ondas

         refazendo as tentativas   morrendo nas tentativas   

   desvendaram o azinhavre ao longo dos trilhos

ínvios        a caatinga nas varandas de labirinto

e um ricto na minha boca

denunciou  todos os instantes que ela ficou  sem tocar na tua pele    como se fosse possível resgatar cada grão de areia  despejada nas

dunas                        mas não estávamos no Saara                 não estávamos

no sertão

havia até

um ventinho fresco esvoaçando as nossas mímicas   e o ruído

do próximo metrô chegando ameaçava com a quantidade de gente

subindo a escada rolante           estávamos na saída do metrô

nos despedimos com um aceno de mão no ar como uma folha

balançando na haste              e com a tua costumeira indiferença

de pardal alçando voo          tu nada percebeste




 

na madrugada um caminhão de transporte    carregando

litros de leite                         sofreu um acidente

o motorista saiu ileso     com as calças mostrando o rego

mas os litros se espatifaram no negro do piche

dava pra se pensar na morte dos lírios   e   dos jasmins

dava pra se pensar no caiar das sombras    e do lodo

dava pra se pensar no equívoco da lua nova       estendida

se entregando ao piche como ao negro da noite     sobre a pele

refletia a luz débil       embriagada      do poste testemunha

as matizes dançavam nas poças brancas     feito pirilampos

conforme o ângulo      e quando o abóbora do sol chegou

nas primeiras horas de um feriado      faminto

logo manchou tudo de alaranjado          de tal forma

que os trigos quase resolveram nascer ali                   

                                                           sei de tudo isso

porque passei de carro na pista ao lado      e tirei

uma fotografia                digital

 

 

 

na virilha      entre a noite e o dia

inerte    diminuído    o tronco caído

descansas do meu corpo passado a limpo

do invólucro da minha mão quente

e o calor na caverna da minha boca onde amadureceste

com gosto de fruta sharon         penetraste no túnel

dos meus segredos tangíveis    e a rigidez da tua procura

apertada nas paredes da carne macia     atingiu a intensidade

e a cadência do chegar       até o suor escorrer

pelos músculos embaçados da janela fechada

 

 

 

Viviane de Santana Paulo, paulistana,  é autora do livro Passeio ao Longo do Reno (2002) e Estrangeiro de Mim (2005), publicados pela editora alemã Gardez! Verlag. Participa das antologias Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007); e Roteiro de Poesia da Brasileira - Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009). Publicou poemas em revistas e jornais literários brasileiros e latino-americanos.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]

 
 
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