poesia

quatro poemas de

Silvério Duque

 




LÚCIFER
SOBRE UM POEMA DE MIHAI EMINESCU
 
à Cristina Nicoleta Mănescu, por sua história.
 

 
 Sobrou de toda mágoa – e destas ânsias –
este anjo cujos olhos renasciam
entre os vôos que, nas asas, se insurgiam
por entre os céus sem fim e sem distâncias.
 
Ele girou em torno de seu rosto
num estertor de infinito que o nutria,
e, na manhã reescrita que o seguia,
vi a rosácea inconsútil de um sol-posto.
 
O anjo, de asas de sombra e luz que medra,
deixou seu nome em tudo quanto existe,
por ser, entre as estrelas, a mais triste.
 
Tudo que o anjo quis, perdeu na queda...
O ardor pelo que morre e o rosto terno
de alguém que se cansou de amar o Eterno.
 




SONETO


Bendito seja todo esquecimento;
bendita, também, seja toda sede
e tudo mais que nos desperte a carne
ou que nos torne estranhos ante o espelho.
 
Bendito o nosso instante mais impuro;
o que sobrou de nós e o nosso início –
tanto vazio e cor num só começo –,
tantas mortes das quais nos refazemos.
 
Que Deus nos abençoe por entre as pedras
com o ressoar cruel do vão destino;
e que eu O veja inteiro ( em cada passo )
 
– e que possas senti-Lo em meio aos braços
com os quais, na dor, abraças teus joelhos...
Bendita seja a paz destes silêncios.






A CASA DE ASAS
ou A SEGUNDA METAMORFOSE DA CASA:
SOBRE UM TEMA DE DAMÁRIO DA CRUZ
 
à memória de Eugênio de Andrade
 
 
 
de pouquinho em pouquinho
vai se erguendo esta casa
feitinha de silêncio
 
mas não se contentando
apenas em ser casa
vai se tornando nuvem
 
e se estende por terras
distantes, esta casa
que agora voa, voa...
 
ela dorme no vento
e sonhando-se casa
é pássaro na rota
 
porque toda ave sabe
sem saber-se ave-casa
das rotas do retorno
 
porque toda ave sabe
tornando-se ave-casa
da forma e seus contornos...
 
mas, que dizer então
desse pássaro-casa
que um dia será  chuva?
 
 


 
O EVANGELHO SEGUNDO NÓS MESMOS (parte XI)
 
 
Mas entro e, Senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
Por que esta nova cilada?...
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
 
...ao mestre e amigo, José Jerônimo de Moraes, esta Ladainha.



XI
 
 
tudo é tão terrível, Senhor
e em tudo existe o mesmo sopro
a mesma ordem
a mesma luz
o mesmo instante
o mesmo fim
que sei eu dos vivos, Senhor
que sei destas cartas abertas
destes dizeres
desta caneta
deste poema
da superfície do papel ou da superfície de tudo
sinto-me nascido para o eterno recomeço
               meu coração – mangueira partida
               meus olhos – lanterna afogada
e em tudo existe a mesma vida
o coração há de chorar a sua música
e o meu olhar se apagará
simplesmente
deixa-me repousar em Tua sombra, Senhor
em Tua sombra maternal e infinita
porque o meu corpo já  Te escuta
porque o meu espírito sempre Te buscou
     porque o meu espírito sempre quis voltar a Ti
ah, um cisne em agonia
este telhado onde pombas passeiam tranqüilas
uma boba cantarolando rumo ao rio
esta rainha ensangüentada
esta princesa a servir de pêndulo
a louca nudez de um rei perdido
a rosa sem nome
sua espada e o seu veneno
a princesa que dormia:
que era o próprio príncipe a mirar-se na memória
o gigante adormecido
a mortalha impossível
Orfeu reinventando-se
esta estrada
estas pedras
este poema sujo
o tumbeiro rumo aos mares
a mar tantas vezes ressurreto...
 
    

 

 

Silvério Duque nasceu em Feira de Santana-BA. É licenciado em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além da poeta, é músico, clarinetista. Já coordenou a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. É autor de dois livros de poesia: O crânio dos Peixes ( Ed MAC, 2002 ) e Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama, 2006)
 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]

 
 
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