5 poemas de 
Harald Hartung
Tradução de Viviane de Santana Paulo






vista para o pátio

Enquanto começa a nevar
a menina balança no pátio
balança aprofundando-se
na crescente obscuridade branca
Felicidade é uma fração de sonho
Olho para o balanço vazio
ainda resta um pouco de movimento 
 

Blick in den Hof

Während es anfängt zu schneien
schaukelt das Mädchen im Hof
schaukelt sich tief
ins wachsende weiße Dunkel
Glück ist ein Sekundenschlaf
Ich schaue auf, die leere Schaukel
schwingt noch ein wenig nach



fim da partida

Descartamos as dores (a dor)
as amarguras (a amargura)
os sonhos (o sonho)
e as palavras (a palavra)
esta carta que por fim
leva a pilha toda a ruir
lentamente 

Ende der Partie
         
Wir legen die Schmerzen ab (den Schmerz)
die Bitterkeiten (die Bitterkeit)
die Träume (den Traum)
und die Worte (das Wort)
jene Karte die endlich
zeitlupenhaft den ganzen Stapel
ins Rutschen bringt




frase esquecida

Ontem muito cedo me ocorreu uma frase
Tratava da morte e começava a morte…
e seguiu algo como uma afirmação

Pareceu-me ser boa e ao mesmo tempo me consolou
de forma que permaneci deitado e apreciei minha sorte

Em seguida me levantei a morte é… experimentei
e esqueci como continuava

A morte é uma frase esquecida

Quando regressa e de que forma?

Vergessene Zeile
           
Gestern sehr früh fiel mir eine Zeile ein
Sie handelte vom Tod und begann Der Tod...
dann folgte etwas wie eine Behauptung
Sie schien mir gut und tröstete mich zugleich
so daß ich liegen blieb und mein Glück genoß
Dann stand ich auf Der Tod ist... probierte ich
und hatte vergessen wie es weiterging
Der Tod ist eine vergessene Zeile
Wann kehrt er wieder und in welcher Gestalt?




papel sob a neve

Poderia ficar horas a fio admirando
como neva
as sílabas da neve caindo
que formam palavras e frases
e entumecem as árvores lentamente
até que todas as linhas são preenchidas
e o papel de novo branco


Papier auf dem es schneit          

Ich könnte stundenlang zusehn
wie es schneit
den Silben des Schneefalls
die Worte bilden und Sätze
und langsam die Bäume beschweren
bis alle Zeilen gefüllt sind
und das Papier wieder weiß




chaves perdidas

Junto a lata de coca-cola, enferrruja a cadeira de jardim
dentro do chafariz, enquanto à uma árvore um velho mendigo
mija cantando
Já dei minhas tantas voltas e
no segundo andar ainda não se vê luz nenhuma
Chega o velho com o jeans molhado
Murmura algo, úmido é o seu olhar fraterno
Também você, meu filho! Também você estará em breve junto a nós.


Schlüssel verloren          

Bei Coladosen rostet ein Gartenstuhl
im Brunnenbecken während an einem Baum
der alte Penner singend sein Wasser lässt
Es ist schon meine wievielte Runde und
im zweiten Stock noch immer kein Licht zu sehn
Es kommt der Alte mit den beschifften Jeans
Er brabbelt etwas, feucht ist sein Bruderblick
Auch du mein Sohn! Auch du wirst bald bei uns sein





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Harald Hartung (1932* Herne/Alemanha) é poeta, ensaísta e crítico, escreve regularmente para o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi professor junto a Universidade Técnica de Berlim e diretor da Casa de Literatura. É membro do Pen Clube, da Academia Alemã de Língua e Literatura em Darmstadt, da Academia de Artes em Berlim e da Academia de Ciência e Literatura Alemã em Mainz.


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Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002) e Estrangeiro de mim (2005). A autora assina também as traduções de fragmentos de cartas e poemas. Tem ensaio publicado na revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores, nº. 15, São Paulo, abril 2007.
E-mail: vsantanapaulo@yahoo.com.br.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010] 
 
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