6 poemas de
Victor Del Franco





passageiro

O tempo não passa,
passo pelo tempo
que me ultrapassa.


(A urdidura da tramA – Giordano, 1998)




black hole: star

Se há no céu um corpo
onde a luz é concebida,
necessário faz-se um outro
que lhe inspire a vida.


(A urdidura da tramA – Giordano, 1998)




escavação

em meio
a lugar nenhum,
ossos e
resquícios
de uma história
mal
contada

a cidade
que emerge em
ruínas
revela seus
pequenos pecados

o fogo cerimonial é aceso
para conter a ira dos deuses
e o jovem guerreiro
oferece o coração
   em sacrifício

sobressalto
de uma noite
em descompasso

falta de ar
transpiração

e o sol
ainda nem despontou
na moldura
do quarto

Dédalo
ergue paredes tortuosas
em sua própria cabeça

travessia incerta

alucinação

a luz
a luz
a luz

travesseiro de pedra

ônibus
em circulação
      vomitam
      carbono

sem promessas
o dia amanhece
e ponto.

lavar o rosto,
espantar o sono
e encarar o fantasma
    no espelho

trinta e poucos anos

– sim,
estes ossos devem pertencer
a um homem de uns
trinta e poucos anos

máscara sagrada
de algum ritual,
invocação dos espíritos:
deuses da chuva
deuses da terra
deuses de todas
as forças da Natureza,
abençoai nossas plantações

potes de cereais

– sim,
estes cacos de cerâmica
nos dão mostras
de uma civilização
bem desenvolvida

fazer as contas
na ponta do lápis
e separar o dinheiro
do supermercado

um quilo de batatas
meia dúzia de tomates
um pacote de arroz

de um solstício
a outro
a Terra deixa sinais
de suas translações.


(O elemento subterrâneO – Demônio Negro, 2007)

 




des
fio
o
fio
da
fi
na
malha
no
fio
da
na
valha

des
a
fio


(O elemento subterrâneO – Demônio Negro, 2007)





EsfingE

fere
o fio da navalha
no meio-fio
da meada
cortando as veias de
     asfalto
por onde flui
o sangue tenso
que escorre
aos subterrâneos
do turvo medo
oculto por detrás
de muros imundos
e paredes erguidas em
     concreto
armado até os dentes
das novas arquiteturas
envelhecidas nas alturas
de edifícios que
arranham os céus
carregados de poeira
         e fumaça
por onde vaza
a seca luz
            do Sol
            insondável

fere
a fina retina
dos olhos
a luz ilusória das telas
que trans
       figuram os fatos
em teatros do real,
em cenas e cenários
                 reluzentes
que invadem as casas,
quartos e salas,
todos os cantos
         e recantos
do seu refúgio
inviolável
   a sua poltrona
   mais confortável
   a sua atenção
   mais atônita
   o seu silêncio
   mais soturno
   diante de
   mosaicos modernos
        de
     vidro
   e violência

fere
a fina pele
dos dias
a fome voraz
dos tempos con
        tempo
        râneos
     metal
encravado
nos corações
que correm
ainda mais
atrás do tempo
sem tempo de ser
      tempo
o tempo que
voa veloz
em ciclos
constantes
            a re
  volver
            o próprio
            Tempo


(Trecho inicial do livro-poema EsfingE – Edição do Autor, 2010)





supernova

estrela
em con
trações en
tre forças
(gravi)
tacionais

corpo com
plexo em si
lente
(gravi)
dez

tino
sem
fim

tempo es
paço feito co
lapso para
outra
(vital)
idade


(Poema inédito em livro)




____________________
Victor Del Franco nasceu na cidade de São Paulo,1969. Poeta, revisor e designer gráfico. Editor da revista Celuzlose (http://celuzlose.blogspot.com). Livros publicados: A urdidura da tramA (Giordano, 1998); O elemento subterrâneO (Demônio Negro, 2007), disponível em versão digital no link: (http://issuu.com/vdfranco/docs/oelemento_subterraneo); EsfingE (Edição do Autor, 2010), disponível em versão digital no link: (http://issuu.com/vdfranco/docs/esfinge_2010).



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
 
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