Sinais
Patrícia de Oliveira Lucas




Alguns anos se passaram, e eles nunca mais se encontraram; pelo menos não da forma como ela gostaria. 

Ela ainda mantinha forte dentro de si a sensação e a certeza de que ele um dia voltaria. Ele, por sua vez, não podia mais voltar.

Um dia, antes de se deitar, ela sentiu uma brisa intensa. Fechou as janelas de pronto e tratou de encontrar mais um cobertor para garantir uma boa noite de sono. Acabou por dormir e, em seus sonhos, encontrou-se com um mendigo.

Ele era alto, tinha cabelos claros e uma voz familiar. Embora mal trajado, ele sustentava um tom elegante. Depois de se olharem, ele a chamou para conversar, e assim fizeram por horas, em frente a uma lanchonete nunca antes por ela vista.

Ela tratou de oferecer-lhe comida, e ele disse que não mais necessitava de alimento. Ela se surpreendeu, pois o achou muito bem informado, dono de uma conversa interessante. Em alguns momentos, parecia até que ele conhecia fatos da vida dela.

Depois de muita prosa, ela disse que precisaria ir embora, pois viajaria na manhã seguinte para outra cidade, a trabalho. Ele, então, disse para ela não viajar. Disse também que ela deveria esperar a próxima semana. Ela relutou, dizendo que não poderia, mas ele insistiu mais uma vez, e ela simplesmente não lhe deu ouvidos.

Quando estava saindo, ele ainda lhe disse uma última frase, que a fez parar. Ela sentiu a mesma brisa que outrora tocara seu corpo. Voltou e pediu que o mendigo lhe mostrasse a face. Ela lhe tocou a pele, olhou em seus olhos e, com um misto de choro e riso, disse-lhe: “Eu sabia que era você e que um dia voltaria! Senti tanto a sua falta! Eu fiquei com um vazio na minha vida!”.

Ele a olhou fixamente e disse: “Eu estou sempre contigo e vou estar eternamente, mais ainda, e você vai entender. Tive a chance de lhe trazer esta mensagem. Agora, você vai acordar e, por alguma razão, não vai fazer essa tal viagem. Fique em paz, eu estou em paz!”.

Quando ela acordou, percebeu que sua cama estava molhada e, então, chamou seu esposo. Ela estava em seu sétimo mês de gestação, e sua bolsa havia se rompido. Antes de sair de casa, ela telefonou para seu chefe e disse que não poderia viajar naquele dia, porque estava entrando em trabalho de parto.

A caminho da maternidade, passaram diante de uma lanchonete, e ela, olhando assustada, perguntou ao seu esposo se aquele estabelecimento era novo. Ele disse que a inauguração acontecera na noite anterior. Ela sorriu, e, instantes depois, um choro forte e alto trouxe um lindo menino ao mundo. Ela o segurou nos braços, e ele a olhou, como se já a conhecesse. Ela lhe disse, então: “Seja bem-vindo, meu anjo, minha luz, minha vida!”.



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Patrícia de Oliveira Lucas é formada em Letras pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e mestre em Linguística Aplicada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). É apaixonada pela arte da escrita e, nas horas vagas, atua como escritora. Já atuou como professora de Inglês com Propósitos Específicos em diversos contextos de ensino, como aviação, hotelaria e escola de idiomas. Foi bolsista Fapesp durante a graduação e possui um certificado do Tesol (Teachers of English to Speakers of Other Languages) pelo College Canada. Já trabalhou como voluntária em muitos eventos acadêmicos, nacionais e internacionais.
Email: patriciadeoliveiralucas@yahoo.com.br




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
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