Modernismo brasileiro, hoje

Sérgio de Castro




 

Oswald de Andrade, ícone o mais radical do modernismo brasileiro, até hoje provoca intensidades. Intensidades de amor, intensidades de ódio. Seminal com relação a toda uma série de ricas tendências da arte e cultura brasileiras- para citar apenas algumas, poderíamos falar da poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e do tropicalismo de Caetano Veloso – é sempre a marca da ousadia e da polêmica sua companhia mais habitual. Até hoje.

 Autor de obra extensa e heterogênea, tanto nos gêneros quanto na qualidade,- escreveu romances, poesia, manifestos, peças de teatro, ensaios etc- de um modo geral se poderia dizer que a tendência predominante da crítica nos dias de hoje é a de valorizar sua produção dita “antropofágica”. Aliás, com tal termo deparamo-nos com uma apropriação tipicamente oswaldiana– uma vez que na Europa pós primeira guerra mundial tal termo era usado por outros artistas, - mas adaptado e ajustado a um rico e exuberante passado brasileiro onde tal prática- a da antropofagia ritual- era exercida por grande parte dos habitantes indígenas do Brasil. Oswald a tomará sempre como uma metáfora que remeterá a uma estratégia de acolhimento e abertura às mais radicais diferenças e alteridades, características inclusive que ele localizava como típicas da cultura brasileira. Mas acolhimento que não significaria passividade, uma vez  que, tocado pela metáfora da antropofagia, aquele termo acolhido resultaria em outro, um pouco distinto do inicial e já marcado por algo daquele que o acolheu, quer dizer, do Brasil. É muito impressionante e nada difícil perceber como Oswald realmente captou algo do que poderíamos chamar de um  funcionamento da cultura brasileira. Basta percebermos como, uma vez aportadas no Brasil, elementos os mais antagônicos de culturas alheias acabam por se arrefecer, tendendo a um arranjo e a uma acomodação que talvez não fosse possível em outras sociedades e culturas, como naquelas nas quais tais termos se originaram. Penso por exemplo na convivência – que, mesmo que não seja exatamente pacífica, se dá em termos menos belicosos- das mais diversas religiões em nosso país. Só aqui é possível-como outro dia se testemunhou- que um filho de imigrantes judeus da Europa central se dirija a um amigo filho de imigrantes árabes chamando-o, jocosamente, de brimo (corruptela de primo). Em tal brincadeira, possível em nosso país, constatamos justamente o dito arrefecimento das arestas mais duras de tais religiões e culturas uma vez que elas já teriam sido –no espaço de uma geração- tocadas –ou deglutidas, como diria Oswald- pela tendência antropofágica típica de nosso povo e país. A base de tal tendência será portanto esse acolhimento (a famosa hospitalidade brasileira, por exemplo), por vezes tido por ingênuo-mas não inócuo, como o próprio exemplo indica- que, em sua radicalidade, faz por dissolver ou diluir um pouco as incompatibilidades mais extremadas.

            Por outro lado, se constatamos tal abertura com relação ao Outro, ela só será possível, ainda seguindo Oswald de Andrade, uma vez que, com relação ao que será próprio ou típico do Brasil, haverá também tal abertura e acolhimento. Aliás será essa a base, a partir da qual termos de culturas outras serão recebidas e “deglutidas”, quer dizer, tocadas e modificadas em alguns de seus termos originais. E é aqui que Oswald mais surpreende e choca, provocando reações de adesão incondicional ou de crítica severa. É que os termos que ele localiza como tipicamente brasileiros não seriam exatamente, para a maioria das pessoas, propriamente admiráveis. A preguiça e a lascívia, por exemplo, seriam dois deles. Então, numa esquemática fantasia de coloração antropofágica poderíamos dizer que, o islamismo o mais radical tanto quanto tendências as mais conservadoras do judaísmo, uma vez inseridas no Brasil há uma ou duas gerações, e tocadas de alguma forma por tais termos de nossa cultura, resultariam no brimo citado acima.

É claro que há nisso tudo uma grande dose de brincadeira e bom humor, aliás outros termos realçados por Oswald de Andrade em sua obra, e que não mereceriam, por isso mesmo, serem levados tão a sério. Mas não haveria também aí, no que possa interessar à psicanálise, algo de muito instigante?

 Afinal, reconciliarmo-nos com o que de pior possa haver em nós- o que não significaria exatamente resignarmo-nos àquilo- não abriria possibilidades de convivência- consigo mesmo e com os outros- novas e, certamente, menos marcadas pela hostilidade ou pelo medo?

 

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Sérgio de Castro é psicalanista. Autor de Matriarcado, Antropofagia & Psicanálise.

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
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