O nordeste das tempestades: 
história e etnografia dos espaços no livro Mar Morto de Jorge Amado

Durval Muniz de Albuquerque Júnior - UFRN[*]



 

RESUMO

Este texto aborda a construção histórica de representações literárias acerca do espaço. Toma como fonte para análise o romance do escritor baiano Jorge Amado, Mar Morto, publicado em 1936, quando o romancista faz parte dos quadros do Partido Comunista do Brasil. Ao contrário do que se poderia esperar de um livro que pertence ao gênero do romance proletário, o texto de Amado se organiza mais em torno de dicotomias espaciais, do que de dicotomias sociais, ou estas aparecem explicitadas por antagonismos espaciais. A cidade da Bahia, Salvador, aparece segmentada em espaços antagônicos, espaços dos quais Amado nos oferece uma verdadeira etnografia, cartografando não só suas paisagens naturais, como suas paisagens sociais. Ao lado das segmentações entre espaços motivadas por divisões de classe, emergem também as segmentações espaciais motivadas pelos códigos de gênero estruturantes do cotidiano das comunidades de pescadores, dos homens e mulheres do mar. Há também a segmentação entre espaços da rotina, do trabalho, da exploração e os espaços das utopias, seja das utopias políticas das vanguardas que tentavam orientar estes trabalhadores, seja das utopias populares, os espaços míticos, onde estes homens e mulheres depositavam sonhos e esperanças, se não de uma felicidade terrena, pelo menos de uma felicidade após a morte.

Palavras-Chave: Jorge Amado; Mar Morto; etnografia dos espaços; história das representações espaciais; história e política.


RESUMEN

 

Este trabajo analiza la construcción histórica de representaciones literarias del espacio. Se toma como fuente para el análisis la novela de Jorge Amado, Mar Morto, publicado en 1936, cuando el novelista fue miembro de los cuadros del Partido Comunista de Brasil. Contrariamente a lo que cabría esperar de un libro pertenece al género de la novela proletaria, el texto de Amado se organiza más en torno a dicotomías espaciales; las dicotomías sociales, cuando aparecen, se explican por los antagonismo del espacio. La ciudad de Bahia, Salvador, aparece segmentada en espacios antagónicos, los espacios de los cuales Amado nos ofrece una verdadera etnografia, cartografiando no sólo su paisajes naturales, como sus paisajes sociales. Al lado de las segmentaciones entre espacios impulsados por las divisiones clase, también surge la segmentación espacial motivada por los códigos de géneros estructurantes de la vida cotidiana de las comunidades pesqueras, los hombres y mujeres del mar.  También hay la segmentación entre los espacios de rutina, de trabajo, de la explotación y los espacios de utopías, ya sea de las utopías políticas de la avant-garde que tentaban adoctrinar a estos trabajadores o de las utopias populares, los espacios míticos donde estos hombres y las mujeres depositaban sus esperanzas y sueños, si no de una felicidad terrenal, por lo menos de una felicidad después de la muerte.

 

Palabras-clave: Jorge Amado; Mar Morto; etnografía del espacios; historia de las representaciones espaciales; historia y política.


 



           Mar Morto (1)
, livro publicado em 1936, é o quinto romance de autoria de Jorge Amado. Inscrevendo-se no que ficou conhecida como sua fase de escritor de gromances proletáriosh, fase que coincide com seu ingresso e militância no Partido Comunista, nos anos trinta do século passado é, curiosamente, um livro que se estrutura muito mais em torno de uma etnografia dos espaços, de certa cartografia dos espaços da cidade da Bahia, do que propriamente em torno de uma trama histórica, como era comum nos romances considerados fruto do chamado realismo-socialista. As poucas referências que podemos encontrar ao passado, neste romance, traçam uma visão bastante convencional e tradicional da história. Embora a postura política e ideológica que articula a narrativa leve a se contar a história a partir do povo, a partir das experiências dos homens do cais, o que se poderia considerar a escritura de uma história gvista de baixoh, antes mesmo de que esta expressão tenha sido cunhada pelo historiador marxista Edward Palmer Thompson(2), a história é reduzida aí ao feito dos heróis, daqueles que deixaram nome e fama, mesmo que seja nas páginas de simples ABCs  ou nas canções ou histórias cantadas e contadas pelos velhos menestréis e narradores da beira do cais, como Jeremias  e seu Francisco,  homens que conseguiram sobreviver a uma vida vivida nas ondas e que, agora, imprestáveis para suas labutas, vivem de relembrar o passado, vivem de recordar suas glórias e as daqueles homens que, por terem sido valentes e corajosos, por terem cumprido as leis do cais, merecem ficar não apenas tatuados na memória, como no próprio corpo daqueles que ficaram vivos para relembrarem seus feitos.

Neste livro ele conta as histórias que ouviu dos velhos marinheiros que remendam velas, dos mestres de saveiros, dos pretos tatuados, dos malandros. Histórias que ouviu nas noites de lua no cais do Mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus(3). Mas, ao mesmo tempo em que sua história se propõe a não mais se reduzir aos feitos de viscondes, de condes, de marqueses, de barões do Império, que dominaram as cidades do Recôncavo, que ditaram leis, que casaram e batizaram e mandaram matar e enterrar, termina por ser, contraditoriamente, com uma leitura da história feita pelo marxismo, uma história também pontificada por indivíduos excepcionais, aos moldes da historiografia feita no século dezenove, a historiografia dita positivista, aquela feita em torno da biografia de grandes homens. Amado apenas propõe a troca dos heróis das classes dominantes pelos heróis populares. Talvez influenciado pela ideia que grassava nos meios comunistas, como justificativa para o culto à personalidade praticada por Stalin na URSS, que o proletariado precisava de heróis, de figuras exemplares, exemplos de rebeldia, de luta contra a exploração e a opressão, Amado elabora, tal como faziam os intelectuais dos Institutos Históricos, um panteão de heróis, heróis populares, estrelas que brilham no céu, como guias para a descoberta do novo mundo que se anunciava. Esta imagem parece nos remeter para o imaginário cristão, da estrela guia que levou os pastores e os reis magos até o salvador. Besouro era uma estrela que brilhava no céu de Santo Amaro. Por causa dele, e não por causa dos inúmeros nobres que a terra produziu, é que era terra amada dos homens do cais. Ali tinha derramado sangue, tinha esfaqueado, atirado, lutado capoeira, cantado sambas e ali tinha aparecido todo retalhado a facão, cortado pelo ódio dos poderosos que desafiara. Como ele, brilhavam neste panteão de heróis populares: Lucas da Feira, Zumbi e Zé Ninck e um dia figuraria Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Ressalte-se que, talvez, tenha sido Jorge Amado um dos poucos homens de esquerda no país a ver em Lampião, quando este ainda estava vivo e atuando no sertão, um representante da luta e da rebeldia popular, uma manifestação contrária à opressão e exploração de classes(4). Basta ver os artigos escritos por outro escritor comunista, Graciliano Ramos, sobre o rei do cangaço, para ver como Amado estava sozinho, naquele momento, em sua posição.

            Mas se Mar Morto é pobre em referências históricas é, como grande parte das obras de Jorge Amado, rico em observações etnográficas e, principalmente, importante narrativa para quem quer fazer uma etnografia dos espaços, uma etnografia dos lugares da cidade da Bahia, como chamava Salvador. O livro está estruturado em torno de hierarquias e conflitos espaciais, que materializam e dão visibilidades às hierarquias e conflitos sociais, às diferenças culturais e de valores, mas, ao mesmo tempo, em torno da circulação entre estes espaços e da transgressão destes lugares fixos, destes lugares antagônicos em que se segmentava a cidade. A dicotomia espacial principal, aquela que organiza toda a história, é a que separa o mar da terra, homens e vidas do mar e da terra. Esta dicotomia maior se subdivide em outras dela derivadas, como a que separa o cais da cidade, que no caso de Salvador se materializa numa dicotomia entre o alto e o baixo, mediados pela presença do elevador Lacerda. Mas esta dicotomia também se desdobra na que separa a casa do barco, do saveiro, da canoa, do batelão, do baiano, do navio; dicotomia de espaços de gênero, separação entre o espaço do trabalho doméstico e da espera, espaço feminino, e o espaço do trabalho público e da ação, espaço masculino. Separação que também se dá entre o espaço da casa e os espaços da rua e do bar, apenas freqüentados por homens e por mulheres que não são direitas, não são casadas, pelas putas e pelos boêmios e vagabundos. Em todos estes espaços corpos a circularem, corpos que ganham identidades específicas em cada um deles, mas que também podem vir a transgredir suas normas, suas hierarquias, seus significados. Estes espaços, pelas ações e sentimentos humanos, tornam-se ambivalentes, podem ser amigos ou inimigos, lugares de liberdade e de escravidão, podem ser doces ou terríveis, podem ser para o amor ou para a morte. As emoções das personagens podem dar cores diferentes aos mesmos espaços, já que, como nos ensina Bachelard(5), os espaços são construções subjetivas, construções poéticas, além de suportes materiais de relações sociais e culturais. O livro também nos oferece espaços utópicos, espaços para a fuga do real, para a construção de outras realidades, o que Michel Foucault chamou de construção de heterotopias(6), espaços que dão passagem para o sonho e o desejo. 

            Neste livro de Amado, como indicia o próprio título, a grande personagem é o mar. É em torno dele que gira a vida de todas as outras personagens que compõem a trama da história. O livro trata das vidas que dependem do mar, que a ele estão atreladas, vidas que seriam mais miseráveis e mais penosas do que daqueles que trabalham no campo ou nas fábricas; vidas que, mais do que aquelas, estão condenadas à morte certa, à morte rápida e de repente, à morte na juventude; vidas escravizadas ao mar, mais infelizes do que as daqueles que vivem a escravidão ao capital e ao patrão na terra(7). O mar é, antes de tudo, mistério, lugar difícil para a racionalidade, espaço que, ao contrário da cidade, não se submete aos ditames e projetos de intervenção racionalizadores(8). O mar é rebelde à razão, é espaço do mito, do sagrado, do incontrolável, do ingovernável, da morte. Como entender o mar, como entender os que vivem e morrem no mar? Para um homem da terra isto é impossível. O mar é lugar de poesia, de música, de sentimento, de sensações, avesso à lógica e à compreensão. O mar é, nas palavras de Deleuze e Guattari(9), espaço liso, espaço difícil de ser estriado, de ser marcado pela passagem dos homens, explicado por suas reflexões. O mar a tudo dissolve; tudo o que ele dá, ele toma(10). Ele dá a vida e a tira da forma mais abrupta. O mar é uma estrada larga e traiçoeira, oscilante e perigosa, que tem que ser conquistada a cada dia: caminho movente, instável, tempestuoso, balançante, caminho sem fim(11). Dele vem toda a alegria e toda a tristeza: a alegria do reencontro diário com o cais, com a casa e com o amor; a alegria diária do peixe na mesa; a tristeza da chegada do cadáver do corpo amado na praia, da chegada de corpos despedaçados por tubarões, inchados e cheios de siris, de velas quebradas e cascos rotos, do peixe mirrado e das dividas impagáveis aos patrões. O mar é mudança, é movimento permanente, incessante, é surpresa, é o inesperado. O mar é violência e é doçura, é fúria e é carícia. O mar é trágico, até sua luz come os olhos da gente. Anti-iluminista, o olhar aí não alcança suas profundezas, não consegue apreender sua essência, talvez porque esta é líquida, é movente. O mar nos recorda as forças indomáveis do cosmos, da natureza, e aponta para a pequenez humana. O mar é agitação constante, tudo o que os poderes da terra temem. O mar é o indomável, é o ingovernável. O mar é livre, mas acorrenta aqueles que dele vivem. O mar é aventura, é afrontar a incerteza cada vez que se parte. Como se pode construir uma ciência do mar, se ele é inimigo das verdades definitivas? O mar não tem sequer cores definitivas: o mar azul dos dias calmos, o mar verde dos dias de paixão, dá lugar ao mar negro das noites de tempestade ou ao mar plúmbeo, o mar de chumbo dos dias de desgraças, de mortes no mar, de mar morto(12).

O mar é a pátria de uma gente estranha para os que vivem na terra, pátria do povo de Iemanjá. Gente com corpo de pele de sal, de vida e humor instáveis e oscilantes como o mar; gente em que até o andar é gingante, balançante, ondeante como as águas e as embarcações em que vive todos os dias; gente de passos largos e inseguros como se tivesse apanhado vento forte. Gente sempre próxima a se afundar, nas águas, na cachaça, nas dívidas, na prostituição, na miséria, no desejo, no amor. Náufragos da vida, que afogam as mágoas e as desilusões nos bares pobres do cais. Gente que entoa as tristes canções do mar, as canções que falam de morte e de amores perdidos. Canções que dizem ser doce morrer no mar, pois é morte rápida(13). Gente que ama rapidamente, mas que se prolonga nos beijos e nas noites de amor, porque elas podem ser sempre as últimas; gente que dá adeuses longos, com mãos que acenam, como que ainda chamando o ser que parte e pode não voltar, bem diferente da gente da terra, que dá beijos rápidos quando sai para os negócios, para a velocidade do tempo das mercadorias(14). Aqui o tempo ainda é marcado pelos ritmos da natureza, relógio serve muito pouco.  Gente que nunca irá viver na terra, ter outra profissão, porque desde criança é ensinada a amar o mar, desde pequena é por ele alimentada e educada, que não tem tempo nem para a escola: o mar a convoca cedo. O mar fascina e apaixona, o mar tem feitiço, por isso é muito difícil abandoná-lo(15). Gente fatalista, que acredita em destino traçado, que espera pelo dia em que a desgraça virá bater à porta. É para esta gente que Amado volta seu olhar de ternura e incompreensão, pois é homem da terra. Como entender os sentimentos desta gente, como traduzi-los literariamente(16)? Além de homem da cidade, é um intelectual, intelectual que ama o povo, que é solidário com suas lutas, como D. Dulce e Dr. Rodrigo que, no entanto, apesar de terem se mudado para o cais, apesar de terem dedicado suas vidas a tentarem ajudar aqueles homens e mulheres, aquelas crianças, não são capazes de compreendê-los, embora saibam, mais do que eles mesmos, o que deveriam fazer para mudarem suas vidas.

O cais é descrito por Amado como o antípoda da cidade, assim como o mar é da terra(17). A  cidade é espaço iluminado por mil lâmpadas elétricas, espaço feérico, espaço barulhento, onde os sinos badalam e ouvem-se músicas alegres, risada de homens, ruídos de carros. No cais apenas a luz da lua e das estrelas, músicas tristes e o ruído apenas de canoas e saveiros a balançar nas águas ou de pequenos pulos de peixes que passam sob as águas(18). A cidade encarapitada lá no morro, indiciava em sua geografia a hierarquia que lhe sobrepunha ao cais. Lá moravam os que dominavam os barcos e o povo do cais; era para lá que subia o produto de seus dias de trabalho para alimentar o bolso de comerciantes e atravessadores ricos; era para lá que subia o contrabando desembarcado clandestinamente de porões de saveiros para enriquecer os Toufick e os Hadad, que falavam até uma língua enrolada e diferente. A cidade era barulhenta, mas era mais calma que o cais, pois lá não havia a ameaça de morte incessante. Na cidade havia mulheres lindas, coisas diferentes, cinema e teatro, botequins e muita gente.  No cais havia apenas o Farol das Estrelas para os homens beberem e discutirem suas misérias. Na cidade, ao contrário do mar, não havia mistério, tudo era claro como a luz das lâmpadas. A cidade é racionalista, iluminista, cartesiana, sem sinuosidades, geométrica, matemática. O mar é barroco, embora a cidade alta é que se diz assim. As estradas da cidade, suas ruas, eram muitas e bem calçadas e já estavam há muito conquistadas. No mar só havia uma estrada, e essa era de conquista diuturna, estrada traiçoeira, estrada desterritorializada. A cidade é previsível, é governável, é disciplinar, é de lá que vinha o governo e os governantes. A cidade é feita de fluxos previsíveis, o mar de rajadas inesperadas. A cidade tem ruas bonitas, casas fortes e amplas; na beira do cais tudo é tosco, provisório, até as habitações são precárias. A cidade era o lugar da higiene e da medicalização, o cais era o lugar dos destroços, do lixo, dos ratos e das doenças endêmicas. A cidade daria vida sem risco, vida rotineira, mas vida sem aventura e sem poesia. A cidade era onde se faziam as leis, para onde iam presos aqueles que da cidade baixa descumpriam estas leis que eram feitas lá em cima, pelos de cima. Mas o cais tinha suas próprias leis que, se desobedecidas, transformavam seu infrator em pária, que passava a não valer nada para os demais. É na cidade onde estão os museus, os monumentos, as estátuas que falam de homens famosos, onde se cultua a memória dos grandes homens da pátria. Mas o cais tem também a sua própria história, aí se cultua a memória de seus heróis, aí se transformam corpos em monumentos para aqueles que tombaram em luta com o mar. Até a morte, que podia irmanar terra e mar, cidade e cais - pois lá em cima também se morria - também os separava: a morte na terra, a morte na cidade era lenta, sem aventura, morte hospitalar.  No cais tudo começa e acaba de repente, como a tempestade, até mesmo a vida(19).

Mas estes espaços não são praticados, como diria Certeau(20), da mesma forma por homens e mulheres, adultos e crianças, jovens e velhos. Há em Mar Morto uma clara distinção entre os espaços das mulheres, espaços femininos, e os espaços dos homens, espaços masculinos. O cais é o lugar dos velhos, os poucos sobreviventes que não podem ir mais para o mar, que agora, como mulheres, tremem nas tempestades e ajudam a enterrar os mortos; das crianças, que ainda não podem navegar e das mulheres. O cais é o lugar da espera feminina, das horas compridas, em que aguarda a chegada dos homens, vindos do mar. O cais é o lugar das amantes, das namoradas e das esposas  sentirem o vento batendo em seus rostos e em seus cabelos, corpo atirado para frente, enquanto os olhos se espicham até o horizonte tentando reconhecer a vela do saveiro que traz os seus homens, sentindo um forte frio no peito, quando este demora. O mar é o espaço dos homens, é o mundo proibido para as mulheres, por seus perigos, pelas habilidades que exige. Nele, em seus barcos, saveiros, canoas ou batelões os homens exercem o seu papel de arrimo de família, de chefe da casa, de mestre dos mares, de carregadores, de pescadores. O mar e as embarcações são espaços de trabalho, espaços masculinos, para onde as mulheres só são chamadas para o amor, para o sexo, nas noites de mar calmo e noite estrelada. Quando estes partiam para o mar deixavam suas mulheres em suas casinhas velhas no cais, este era o espaço feminino por excelência. Em casa elas pariam e criavam os filhos, preparavam a comida para quando o marido chegasse, aí também amavam os seus homens, se entregavam a companheiros cujas carnes tinham gosto de mar e de morte. Homens musculosos, com setas tatuadas nos braços, cabelos negros enrolados e caídos sobre o rosto, homens que pitavam sossegadamente seus cachimbos, mas que amavam com violência e doçura, tal como o mar os possuía. Homenzarrões de peitos descobertos, nus da cintura para cima e rostos queimados, risonhos, tímidos quando não estavam encorajados pela cachaça(21). Eles um dia tinham sido meninos rotos e sujos de lama, meninos sem livros e sem sapatos, meninos que logo iam para o trabalho e para a vadiagem do botequim(22). Botequim que era, como os cabarés, espaços masculinos por excelência. As mulheres que entravam nestes espaços eram aquelas decaídas, destruídas pela miséria, aquelas que haviam perdido seus pais, irmãos, maridos, algum homem que as protegesse. Mulheres de peitos e ancas balançantes como proa de saveiro, de olhos verdes como o mar das tempestades. Às mulheres que são mães e esposas, papéis esperados e desejados para todas, cabe a terrível tarefa de chorar e enterrar seu homem morto, de passar a sofrer pelo filho que assume o lugar do pai na faina do mar, de lembrá-lo através de canções e de histórias que cantarão e contarão na beira do cais, do uso do luto fechado que se estenderá por toda a vida(23).

Enquanto aos homens cabem as aventuras e desventuras do mar, às mulheres cabem a angústia e a tristeza do cais e da casa, da espera e da esperança que morre e se renova todo dia. Aos homens cabe a morte no mar, às mulheres a dor da perda e da solidão. Aos homens cabe a demonstração de coragem e de valentia, pois a lei do cais não perdoa aos frouxos e covardes. Todos eles têm alguma coisa no fundo do mar: um filho, um irmão, um amigo, um braço, um saveiro que virou, uma vela que o vento despedaçou. Elas têm um marido, um filho, um pai, um irmão, um amante, o seu sustento, pois não têm mãos para o trabalho duro como as deles. Elas, como os saveiros, são propriedades de seus homens: a traição é punida com dureza pela lei do cais. Homens que se forem corneados devem lavar a honra com sangue sob pena de serem desprezados e virarem chacota para os demais. Homens mulherengos que nem macaco, tendo uma em cada porto, amando-as nos porões dos barcos ou nos areais. No entanto, era às mulheres que cabia a palavra, a fala desmedida; o homem não devia nunca falar demais ou discutir com as mulheres, muito menos com outros homens. Para estes não cabia conversa, mas a resolução da pendenga no braço ou na faca, não levando desaforo para casa. Assim como a fala, o choro era permitido apenas às mulheres. E como choravam as mulheres do mar. Mas homem que é homem não chorava, nem mesmo por um grande amor malogrado. Amor, amor de aventura, não casamento, porque este não era aconselhável para um homem do mar, este deve ser livre, pois quanto mais responsabilidades deixar em terra mais temerá o mar, temerá a morte: as esposas eram como âncoras que prendiam os homens a terra. As próprias mulheres não deveriam querer casar com homem do mar, pois esta instituição prenuncia uma estabilidade que este não pode lhe dar, já que coração de marítimo seria volúvel como o vento, podendo soprar cada hora para um lado. Um homem do mar devia viver levando saveiros pelos portos, fazendo filhos em mulheres desconhecidas, arrancando facas de mãos de homens, bebendo em botequins, tatuando corações no braço, atravessando tempestades, terminando seus dias nos braços de Janaína, única amante fiel dos marinheiros(24).    

Mas é conhecer um corpo de mulher que faz de um menino homem, que certifica a sua masculinidade. Só quando fizer uma mulatinha gritar no saveiro é que será reconhecido, pelos outros, como homem, como adulto.  Para continuar sendo respeitado não pode também fugir de uma briga, principalmente se for para ajudar algum companheiro que estiver sendo ameaçado, pois um homem é a medida do outro, a masculinidade se disputa e se afirma entre homens. É no confronto com outro homem que se definiria quem é macho de verdade. Mas todo homem deve evitar brigar por mulheres, pois elas são um mistério - assim como o mar -, os homens nunca as entenderão, por isso gostar de uma mulher podia ser uma desgraça, pois mulher enganadeira é pior do que temporal, principalmente as que vivem rindo, cochichando, conversando pelos cantos: homem bestando por mulher estaria naufragado(25). Mas existem as mulheres simples e valentes da beira do cais, aquelas que podem ser tratadas como Dona Maria, nome bonito e de respeito. Aquelas acostumadas a ficarem sem seu homem, sem teto, sem abrigo, sem comida, a serem logo engolidas pela fábrica, a lavarem roupa para as famílias da cidade alta ou se entregarem a outros homens para sustentar seus filhos que um dia serão marinheiros também. Mulheres tristes, mesmo quando riem entre copos e canções, mesmo quando têm brilhantina para o cabelo e sandálias para pisar no cais. Mulheres que abortavam seus filhos, não por maldade, mas para não terem depois que abandoná-los pelos botequins do cais ou vê-los ir para o mar desde os oito anos.  Mas mulheres que, mesmo assim, pertencem ao mar porque nele ficaram seus maridos, nele viveram seus amores, nele misturaram suas lágrimas(26).

Mas esta divisão dos espaços masculinos e femininos, esta divisão binária dos papéis de gênero, não deixa de ser transgredida por figuras que remetem a outros tipos de espaços que compõem a obra amadiana: os espaços da utopia, do sonho, o espaço do milagre, termo com que se refere no livro à desejada revolução, que instauraria a sociedade sem classes, a sociedade que poria fim à miséria e à exploração trazidas pelo capitalismo. Através de D. Dulce e Dr. Rodrigo, Amado anuncia o milagre que porá fim à realidade dura e injusta que descreve(27). Mas a vinda deste mundo após o milagre só será possível pela luta dos homens e mulheres que vivem agora, pela rebeldia de homens como Besouro(28), pela generosidade de mulheres como a professorinha dos filhos dos marinheiros ou do médico que a todos socorre, como também pela transgressão das divisões binárias entre os gêneros feita por mulheres como Rosa Palmeirão e Lívia(29). Quando Guma morre, estas duas mulheres ao invés de se prostituírem, ao invés de se entregarem a outros homens, ao invés de irem para a fábrica ou para a lavagem de roupas, assumem o lugar de Guma, no mar, assumem o papel masculino, invadem o espaço exclusivo dos homens. Para Amado, a luta das mulheres era parte da luta pela emancipação da humanidade, o prometido milagre comunista, em que ainda acreditava, neste momento(30). Rosa Palmeirão trazia navalha na saia, punhal no peito e a mão fechada. Já havia surrado seis soldados, comido muita prisão, batido em muito homem, inclusive num coronel com quem se amigara. Rosa Palmeirão afrontava a divisão dos gêneros. Em certos momentos lembrava um homem, abanava as mãos, bebia muita cachaça, manejava facas e navalhas. Mas o que mais gostava era estar estendida na areia, nos braços de Guma, dominada, mulher, muito mulher, catando a cabeça dele, dengosa. A mulher sem porto certo, que merecera um ABC por sua coragem e aventuras, e que quando amava um homem botava cheiro no cabelo, andava ainda mais bonita. Seus olhos metiam medo, eram fundos e verdes como o mar. Como o mar, seus olhos variavam de cor. Mesmo assim Guma foi capaz de enxergar a ternura destes olhos de mar, desejosos de amor, ternos olhos de mulher. Mulher que sonhava ter um filho, que não teve vergonha quando as lágrimas rolaram sobre o punhal do peito e a navalha da saia(31).

Esmeralda e a mãe de Guma, também a seu modo, transgrediram estas divisões binárias que aprisionavam homens e mulheres do cais. Assim como Rosa Palmeirão, que se torna uma mescla de amante e mãe para Guma, irmã de sua mulher Lívia, a mãe de Guma, ao vê-lo, pela primeira vez, já adulto, provoca no filho desejos que são proibidos de ser sentidos por uma mãe. A mãe de Guma oscila entre os papéis de mãe e esposa, papéis fixos e sagrados para as mulheres, mas papéis que não podiam ser exercidos pela mesma mulher. Se Rosa Palmeirão ameaçadoramente borrara as fronteiras entre o masculino e o feminino, a mãe de Guma borrara as fronteiras entre a esposa e a mãe(32). E Esmeralda, a vizinha, a mulher do amigo Rufino, que tenta Guma até levar-lhe a trair a esposa e ao amigo.  Esmeralda, assumindo o papel masculino, da sedução, da conquista. Esmeralda, a mulher ativa, a mulher que não se deixa aprisionar por seu homem, que obedece aos seus desejos, que se expõe assim à implacável lei do cais, sendo morta por seu homem em pleno oceano, homem que se suicida para não encarar a vergonha de ter sido traído(33).

Mas em Mar Morto há dois espaços para a utopia, para o sonho, para a fuga do real. Um espaço utópico popular, aquele representado pelas terras de Aiocá, as terras do sem fim, o reino de Janaina, de Iemanjá e um espaço utópico sonhado pelos intelectuais presentes na trama: a terra depois de transformada pelo milagre da revolução comunista. Nas terras de Aiocá era onde iam morar todos aqueles valentes que morriam no mar. Lá era a terra onde reinava Iemanjá, que tomava estes homens como esposos. Ela, a dona do cais, dos saveiros, da vida dos homens do mar, a mulher de cinco nomes, era a única que podia ser mãe e esposa ao mesmo tempo, por isso seria terrível. Só no dia da morte estes homens podem, como Orungã, ser os filhos que desejam e possuem a mãe, quebrando o tabu originário da civilização. Ela domina os mares, e promete aos homens que morrem e vivem no mar um passeio por toda a terra, por todos os portos, quando morrerem. Promete também uma noite de amor em seus braços. Ela aparece para poucos homens em vida, e quando o faz é para recompensá-los por sua bravura, por terem salvado outros homens da morte certa. Todos estes homens são súditos da Princesa de Aiocá, de Inaê, estão todos desterrados em outras terras e por isso vivem no mar procurando alcançar as terras de sua rainha. A morte os traz de volta para sua terra, para seu reino, por isso não temem a morte, por isso morrem felizes. A morte os liberta da vida de miséria e de sofrimento, promete uma vida mais larga. Mas este reino é só prometido aos homens, pois as mulheres são suas rivais, disputam com ela seus homens, os tentam prender à praia(34). Por isso o espaço utópico sonhado por D. Dulce, aquele que viria com o milagre, é um espaço deste mundo, um espaço da terra, onde caberiam homens e mulheres e onde os deuses estariam mortos, mesmo a deusa de cabelos loiros que se estendem sobre o mar em noite de lua. Aí não haveria súditos nem rainhas, aí só restaria a tristeza da morte, morte digna e em seu tempo. No dia que viesse este milagre tudo seria mais bonito, não haveria tanta miséria no cais e um homem não arriscaria sua vida por duzentos mil réis. Quando este milagre acontecesse, um homem do cais poderia virar comandante de navio, sem precisar se arriscar a morrer numa noite de tempestade para salvar ricaços em perigo. Neste dia, Dr. Rodrigo poderia fazer seus belos versos, tão belos quanto o mar e não poemas que falassem do sofrimento e da miséria da vida do cais. Neste dia, a luta de Besouro, de Lucas da Feira, de Lampião seria recompensada. Talvez neste dia os marítimos possam casar, dar vida melhor para as mulheres e garantir que não morrerão de fome após a morte deles, nem tampouco precisarão se prostituir. Neste dia Besouro voltará como muitos homens, como o cais, todo se levantando, pedindo outras tabelas, outras leis, proteção para viúvas e órfãos. Só neste dia, neste espaço, poder-se-á acreditar na ciência, em seus poderes para enfrentar a miséria, a doença, o analfabetismo. Milagre feito pelos homens, milagre que não vem do céu, nem de nenhum santo de devoção. Um milagre feito pelos homens do cais, clareando tudo, embelezando tudo, como uma noite de luar, onde os cabelos de Iemanjá não mais aparecessem. Milagre nascido da coragem de lutar contra as injustiças, como fizera o negro Bagé, ao defender seus irmãos africanos da exploração e brutalidade colonial. Os exemplos destes homens e mulheres iam se acumulando, o milagre acontecendo, a consciência vencendo a alienação: perfeito esquema marxista. Na greve dos estivadores, via a madrugada deste novo dia surgindo. A luta era o maior milagre, aquele prometido por Lívia, por Rosa Palmeirão, por Guma, por Bagé, por Besouro(35).

Como em grande parte da obra de Jorge Amado, sua referência espacial mais constante em Mar Morto é a cidade da Bahia, a cidade de Salvador, a cidade das sete portas, com seus becos, ladeiras, seus casarões, seu mar e sua gente ou as cidades do Recôncavo baiano, que comporiam a sua Bahia(36). A referência à Bahia, como estado da federação, aparece apenas uma vez no livro, quando Rosa Palmeirão, ao falar de suas andanças, compara os homens da Bahia com os do Rio de Janeiro. Quando diz que homem lá no Rio não era homem não. Fala que era muito respeitada no morro e que lá diziam: se mulher da Bahia é assim, que dizer dos homens. Aqui se reafirma a mitologia da masculinidade ligada à baianidade, ao homem do povo, em contraposição à ideia de que a cidade grande, o Sul e a vida burguesa afeminavam os homens, enunciado comum nos discursos que circulavam desde o final do século XIX no norte do país. Mito compensatório das distintas subalternidades, das distintas impotências: regional e de classe(37).  Como também é constante em sua obra, o recorte regional Nordeste não aparece referido uma só vez em seu texto. Isso se deve ao fato de que a Bahia ainda não fazia parte deste recorte regional, que ainda não havia sequer sido oficializado, o que só acontece com a divisão regional feita pelo recém-criado IBGE, em 1940. Além de que seu espaço de referência é o Recôncavo, que é uma espacialidade desenhada a partir de temas bastante divergentes daqueles que instituíram o Nordeste. Quando se refere a Lampião, este é remetido para o espaço do sertão, não para o espaço nordestino(38). O nordeste, em Mar Morto , é apenas o vento que sopra em forma de gostosa brisa, o vento das noites de amor, que roça deliciosamente os corpos dos amantes em noites de calmaria. Mas também é o nordeste das tempestades, o vento veloz, que derrubava tudo, que amedrontava as mulheres, que revirava barcos e saveiros, que enovelava o mar, que levava os filhos para os braços da mãe de Aiocá. Nordeste feito de brisa e de amor ou de temporal e morte. Nordeste, vento de mar morto(39).

 

REFERÊNCIAS

 

AMADO, Jorge. Mar Morto.  26ª  ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1970.

 

BACHELARD, Gaston. A Poética dos Espaços. São Paulo, Martins Fontes, 1993.

 

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano I: artes de fazer. Petrópolis, Vozes, 1984.

 

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 1997.

 

FOUCAULT, Michel, Outros Espaços. In: Ditos e Escritos. v. III, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2001, pp. 411-422.



_______________________
[*] Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestre e Doutor em História Social pela Universidade Estadual de Campinas.

 

 

NOTAS

1.     AMADO, Jorge. Mar Morto.  26ª  ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1970.

2.     Ver THOMPSON, E. P. Costumes em Comum. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

3.     AMADO, Jorge. Op. Cit. p. 15.

4.     Idem. Ibidem, p. 123-124.

5.     BACHELARD, Gaston. A Poética dos Espaços. São Paulo, Martins Fontes, 1993.

6.     FOUCAULT, Michel, Outros Espaços. In: Ditos e Escritos. v. III, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2001, pp. 411-422.

7.     AMADO, Jorge. Op. Cit. p. 51.

8.     Idem. Ibidem. p. 24.

9.     DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 1997,  pp. 179-214.

10.  AMADO, Jorge. Op. Cit. p. 153.

11.  Idem. Ibidem. p. 54.

12.  Idem. Ibidem, pp.25, 27, 31, 45, 46, 49, 51, 74, 78, 106, 109, 131, 141, 160, 184, 185, 193, 209, 221, 254, 262, 263.

13.  Idem. Ibidem,. p. 31.

14.  Idem. Ibidem, p. 25.

15.  Idem. Ibidem. p. 209.

16.  Idem. Ibidem. p. 15.

17.  Idem. Ibidem. pp. 15, 56, 75, 118, 205 e 209.

18.  Idem. Ibidem. p. 54.

19.  Idem. Ibidem, pp. 54, 117, 118, 164, 209, 215, 244.

20.  CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano I: artes de fazer. Petrópolis, Vozes, 1984, pp. 169-217.

21.  AMADO, Jorge. Op.Cit. pp. 20, 21, 26, 50 e 165.

22.  Idem. Ibidem, p. 50.

23.  Idem. Ibidem. pp. 23, 24, 27, 28, 42, 43, 58, 61, 63, 64, 65, 68, 72, 73, 78, 92, 102, 104, 111, 124, 128, 144, 159, 161, 172, 176 e 261.

24.  Idem. Ibidem. pp. 24, 25, 33, 34, 35, 36, 37, 39, 40, 42, 44, 49, 55, 57, 69, 94, 95, 104, 114 e 126.

25.  Idem. Ibidem, pp. 17, 19, 20, 23, 66,  184, 185, 197, 201, 213.

26.  Idem. Ibidem. pp. 23, 24, 78, 124, 128, 144, 161, 172, 176 e 261.

27.  Idem. Ibidem. pp. 51, 52, 118, 122.

28.  Idem. Ibidem. pp. 128.

29.  Idem. Ibidem, pp.  58-65 e 264.

30.  Idem. Ibidem. pp. 264-265.

31.  Idem. Ibidem. pp. 58-65.

32.  Idem. Ibidem. pp. 38-43.

33.  Idem. Ibidem, pp. 172-181.

34.  Idem. Ibidem. pp. 78-92.

35.  Idem. Ibidem, pp. 52, 76, 118, 122, 127, 149, 150, 172, 204, 243, 260 e 264.

36.  Idem. Ibidem, pp. 15, 18, 125.

37.  Idem. Ibidem. pp. 62-63.

38.  Idem. Ibidem, p. 124.

39.  Idem. Ibidem, p. 131.


 


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
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