dossiê Vicente Ferreira da Silva

O jovem Vicente Ferreira da Silva[1]

Milton Vargas




Em São Paulo, no ano de 1932, um pequeno grupo de gina-sianos do São Bento reunia se, à hora do lanche, na Leiteria Pereira. Um deles escrevia haikais, outro usava como gravata um impertinente laço preto, um terceiro, filho de general revolucionário, escrevia em panfletos anarquistas. Certo dia eu, que fazia parte do grupo, li um trabalho sobre um Nietzsche arrogante e desdenhoso, embora juvenilmente desesperado. Foi então que Vicente Ferreira da Silva entrou em cena com uma carta em que me respondia. Eram cinco páginas de uma letra miúda as desta carta perdida, gesto desaparecido, momento em que um jovem arroja se a uma forma de vida que escolhe para si. Era um envoi em que renunciava a toda vulgaridade e toda quotidianeidade e prometia fidelidade aos grandes e aos raros seguidores. Nietzsche era um dos autores, mas não um Nietzsche estudado, analisado, posto em confronto com sua época. Era um Nietzsche puro, gritando seus aforismos a nossos ouvidos, absoluto, sem confrontação, sem pátria e sem língua. Mas, como seta dardejante, revelando não tanto aquilo que era, mas o que éramos nós.

Ora, nessa época a Leiteria Pereira era também o ponto de reuião de alguns dos participantes da Semana de 22. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida lá estavam quase todos os dias à hora do lanche, ignorando e sendo acintosamente ignorados pelos nietzschianos imberbes da mesa ao lado. Por parte dos mais velhos havia um displicente desconhecimento da nossa existência; mas, em compensação, por parte dos jovens, havia real hostilidade contra aqueles piadistas que pretendiam usurpar com tiradas irônicas a grandeza dos nossos ídolos eleitos. Os laços de parentesco entre um dos componentes do grupo jovem e um dos modernistas possibilitou por raros momentos um certo diálogo. Mas esses contatos redundavam sempre num completo malogro; e nem poderia ser de outra forma, pois que nos separava o grande vale entre as duas vertentes da formação nacional. De um lado, a rebeldia edipiana dos modernistas contra as nossas origens europeias, mediante um gesto devastador que impele o brasileiro à destruição em si de um europeísmo gasto, substituindo o, paradoxalmente, por outro. De outro, uma fidelidade à cultura europeia, que, se é a matriz dos nossos medalhões culturais, também nos revela o que fomos em nossas origens, o que somos e o que sempre seremos. O primeiro comumente se mostra como o anticulturalismo iconoclasta e irreverente, porém com forte dose de ressentimento, que caracteriza a Semana de 22. Nessa atitude encontram se caracteres opostos: os que pregam a demolição da cultura europeia e os que procuram refúgio na primi-tiva ignorância da nossa gente. A prova disso é que, da Semana de 22, surgiu o Manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, no ano de 1928, quase ao mesmo tempo em que eram publicados Macunaíma e Retrato do Brasil. Esses escritos mostram que ao lado da valorização do que é nosso aparece sempre uma espécie de pudor, ou, nos piores momentos, de repúdio daquilo que nos parece elaboradamente inteligente. O que nos impele absurdamente a preferir o aculturalismo elementar do nosso povo a todas as grandes obras da cultura ocidental. Outro aspecto da nossa autoafirmação é o que se revela, por exemplo, na teoria filosófica de Vicente Ferreira da Silva. Nela, é manifesta a fiel filiação ao pensamento europeu. Não há em suas páginas, por exemplo, a preocupação da filosofia norte americana de, mantendo se fiel ao pensamento europeu, dele divergir, produzindo algo americano; mas aparece em Vicente o irrestrito abandono, a entrega total às origens. Entretanto, paradoxalmente, a filosofia americana é fiel aos textos, estudados, examinados e com¬preendidos; enquanto o abandono brasileiro toma dos textos o que lhe interessa, isola os do contexto europeu, vive-os aqui e agora e os absorve. Nessa absorção, o pensamento de Vicente encontra-se, depois de longo trajeto percorrido, com o de seus compatriotas antro¬pofágicos. Tudo isso está, porém, não simbolizado, mas realmente vivido, no contraste entre um Oswald de Andrade, antropofágico e piadista, e um Vicente Ferreira da Silva, raro nietzschiano adolescente. Num encontro posterior de amizade, o primeiro viu no segundo o suporte da sua antropofagia filosófica, teoricamente falha; enquanto Vicente procurava em Oswald as bases telúricas de que neces¬sitava para a sua filosofia.

O movimento da Semana de 22 foi eminentemente demolidor; mas demolidor num sentido que, de alguma forma, não se tornava mais necessário, porque, no mundo inteiro, o que combatia já tinha sido superado. O mérito da Semana de 22 foi, portanto, o de desatravancar o pensamento brasileiro das formas arcaicas que persistiam entre nós, embora mortas nos grandes centros. É impressionante notar que em 1917 Eliot já publicara seu Prufrock e, em 1922, Waste Land; Yeats, em 1921, já publicara Michael Robartes and the dancer e, em 1915, Ezra Pound já compusera Hugh Selwyn Mauberley, enquanto Rilke, em 1922, já completara as Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu. Esses marcos da literatura moderna, entretanto, não eram conhecidos pelos "revolucionários" de 1922, os quais se     mantinham ligados a Marinetti, Paul Fort e Henri Barbusse, hoje quase esquecidos. É que talvez o ataque aos parnasianos domésticos os interessasse mais do que a procura das novas formas literárias que vinham surgindo. E nisso foram eficientes. Era, talvez, mais saborosa uma piada contra um canastrão nacional do que a constatação de que James Joyce, na Europa, estava abrindo um caminho novo na expressão literária; ou que, mesmo em Portugal, os poemas de O guardador de rebanhos já tinham trazido para a língua portuguesa uma nova possibilidade. Mas isso tudo não tinha a menor importância; pois a Semana não era um movimento de renovação cultural, mas um aspecto do espírito revolucionário do Brasil de então, em que se contestavam as formas gastas da nossa cultura europeia, e se pretendia     implantar algo de vagamente “nacional” verde amarelo. Não se sabia o que se devia aqui implantar; mas toda aquela cultura defasada que se apresentava sob o nome de “parnasianismo”, evidentemente, deveria acabar. Marinetti era puro pretexto e dele só se retirou a violência demolidora. Isto é, Marinetti foi isolado do contexto cultural europeu e integrado, ou engolido, à maneira brasileira, resultando disso que a sua iconoclastia europeia transformou se na ritualística autoflagelação nacional que foram aquelas três obras características da Semana: o Manifesto antropofágico, Macunaíma e Retrato do Brasil.

Paradoxalmente, a obra de Vicente Ferreira da Silva, embora aparentemente de costas para o Brasil, no seu interesse pela cultura europeia, faz a mesma coisa. Em sua fase juvenil, Vicente recorta Bertrand Russell e Wittgenstein do contexto europeu; isola os e os traz para nós, não como autores de um método claro e preciso de conhecimento, mas como algo que destrói toda a tradição de humanismo e comprova o fim de uma cultura. Infelizmente Vicente não se demorou muito nesse campo para poder explicitar o seu temperamento. O que, porém, levou Vicente à lógica matemática não foi uma necessidade de investigação clara e precisa, mas a fascinação de destruir os pressupostos metafísicos de uma cultura que lhe parecia roída por “dois mil anos de marasmo e de discussões estéreis”.

Para o jovem Vicente, o positivismo lógico nunca seria capaz de “se erigir substância essencial das divagações filosóficas, método único de pesquisa da verdade", mas promessa de abolição de todo e qualquer sistema filosófico. Foi a necessidade de contestar basicamente os pressupostos da cultura que o levou a interessar se pelas primeiras notícias do Círculo de Viena, em lugar de envolver se, por exemplo, nas atividades da Internacional Comunista, tão ativa então, e que lhe parecia não uma revolução, mas uma intenção de renovar e reinstaurar as virtudes de uma cultura em declínio. Quem conheceu o Vicente jovem, arremetendo petulantemente contra os “erros” dos grandes filósofos, pode atestar que, realmente, a lógica foi para ele, antes de mais nada, instrumento de agressão contra um mundo que parecia caduco. Alguns anos depois, o contato de Vicente com Quine, professor de Harvard, um dos grandes instituidores da lógica matemática, foi um total desencontro, pois que, evidentemente, não encontrou nele a mesma tônica que pusera na Lógica. Muito mais intenso, demorado e trabalhado foi o entendimento que Vicente manteve com a filosofia de Heidegger; mas neste caso também, creio eu, Vicente atuou absorvendo integral e fielmente o texto original, isolando o porém do seu contexto, banhando o numa atmosfera agressivamente anti humanista e teológica inexistente no original. Com efeito, a substituição da interpretação heideggeriana do Ser pelo Fascinator − a fonte fascinadora donde brota a realidade, que pode ser entendida como encantamento mágico − é, evidentemente, ao mesmo tempo uma adesão ao filósofo alemão e a sua inserção em solo estranho, ou pelo menos diferente do seu. Com efeito, quando Niccola Abbagnano pronunciou em São Paulo uma conferência sobre os existencialismos, incluindo Heidegger, grande foi seu espanto diante da contestação de Vicente à interpretação que dera a Heidegger. “Não sei se a sua leitura de Heidegger, disse Abbagnano, é correta, porém, ela me parece estranhamente original."

É necessário dizer que, naquela época, muito mais do que agora, a cultura europeia nos chegava quase que exclusivamente pela literatura. Com o ataque dos da Semana ao “parnasianismo”, e como este era todo devotado à literatura francesa, apareceu entre nós a oposição às fontes francesas. Era uma oposição que se exprimia, por exemplo, na ideia de que Bergson e Proust eram decadentistas só do gosto da nossa já declinante aristocracia do café. E à medida que diminuía o prestígio da literatura dos “senhores”, aumentava a atenção à literatura dos imigrantes italianos. Encontramo nos, então, com Pirandello e Papini. Entrementes, o grande romance inglês da época também aqui chegava: Aldous Huxley, Chesterton e o então quase desconhecido Lawrence. E, além de tudo, a cultura alemã que aqui entrava por meio da Revista do Ocidente e, com ela, também as interpretações espanholas das ideias alemãs, em Ortega y Gasset. E ainda, finalmente, os russos. Tanto os do velho regime: Dostoiévski, Turguêniev, Pushkin e Tolstoi, como os revolucionários encabeçados por Gorki.

Vicente Ferreira da Silva viveu sua adolescência sob o impacto dessa libertação do monopólio cultural francês e a abertura para a totalidade da cultura europeia. Dois autores entretanto tiveram enorme importância em sua mocidade: Pirandello e Aldous Huxley. Pirandello, principalmente no seu Uno, nessuno e centomila, com as suas perguntas insistentes sobre a realidade, moveu Vicente para o idealismo crítico de Kant. Aldous Huxley instigou sua adesão juvenil à ciência. Adesão esta não destituída de agressividade, colocando o corpo científico como instância trans humana, que, do alto, ameaçava uma humanidade em decadência. Nas ciências encaminhou se Vicente para a matemática. Já na Faculdade de Direito, por volta de 1933, resolveu estudar matemática. E a estudou metodicamente, desde a álgebra e a geometria elementares até o cálculo diferencial e a geometria analítica. Estudava só, mas cuidadosamente, fazendo exercícios e conferindo constantemente seus conhecimentos com um amigo, estudante de engenharia. Mais tarde completou seus estudos próprios com aulas particulares do professor Monteiro Camargo, de quem foi amigo próximo. Essa conjugação de Kant e matemática naturalmente conduziu Vicente à lógica matemática, de Bertrand Russell e Whitehead, de que foi, provavelmente, o primeiro leitor brasileiro, como comprovam as suas anotações à margem de um exemplar da primeira edição dessa obra, pertencente à biblioteca da Escola Politécnica.

Ora, em 1933 fundava se a Universidade de São Paulo. Fundou-se, entretanto, com um vício de origem. Nasceu dividida entre Filosofia, Letras e Ciências Humanas, de um lado, e Ciências Exatas e profissões, do outro. Paulo Duarte e Theodoro Ramos, enviados à Europa em busca de professores, divergiram nas suas escolhas. O primeiro trouxe professores franceses para o departamento de Filosofia e Letras; o segundo, italianos para o de Ciências Exatas. Embora     também tivessem vindo a São Paulo dois grandes professores alemães     para a área de Biologia, a universidade dividiu se em dois setores quase tão opostos como os em que se encontravam a França e a Itália naquela época. Além disso, havia a reação das escolas profissionais já existentes e incorporadas à USP. De um lado, a Filosofia e as Letras assumiram o caráter universitário sob a égide dos grandes franceses: Guerroult, Lévi Strauss, Granger, Bastide. A eles aderiram, com Paulo Duarte, não os “protagonistas” da Semana, mas os seus “descendentes”. Do outro lado, as Ciências, com Fantapié, Wataghin, Ochiallini e Honorato, estavam mais próximas das antigas faculdades profissionais. A eles aderiram alunos dessas escolas e, através de Theodoro Ramos, alguns dos seus professores; quase todos muito distantes das disputas lítero culturais da Semana. Vicente Ferreira da Silva, por sua família originariamente italiana e por sua adesão à matemática, embora estudante de Direito, ligava se ao segundo grupo. Havia um quê de esquerdismo na Filosofia e nas Letras e um quê de direitismo nas Ciências Exatas, e esse divortium aquarum manteve se, infelizmente para o desenvolvimento cultural do país, até a morte de Vicente. Vicente imediatamente aproximou se de Fantapié e através dele informou se da situação da lógica matemática italiana. Burali Forti e Levy Civita, além de todo o apogeu da matemática italiana dos anos 1930, passaram pela assimilação de Vicente sob as vistas de Fantapié que, além de matemático, era um profundo conhecedor da lógica. Logo em seguida, Hilbert e os do Círculo de Viena foram as primeiras leituras germânicas de Vicente.

O que mais seduziu inicialmente Vicente, nos Principia, de Russell e Whitehead, foi a possibilidade de estender a lógica às proposições relacionais. “O Universo não é constituído unicamente por entes aos quais são atribuídas propriedades, como quer a forma apofática de Aristóteles, mas também por relações entre entes. As expressões linguísticas que descrevem estas ocorrências são justamente as proposições relacionais”, diz Vicente ao final da Conferência em que se iniciou na vida cultural, feita no Instituto de Engenharia em São Paulo, em março de 1939. Ele compreendia perfeitamente que mesmo a lógica matemática de Boole só abrangia as proposições de inclusão em classes. A aristotélica proposição tipo "A e B” ainda dominava o panorama lógico; entretanto, os Principia possibilitavam a análise lógica das proposições relacionais que dominam a matemática; isto é, as do tipo “A está à direita de B”, “A precede ou sucede B”. E não escapou a Vicente – ainda me lembro bem de uma nossa conversa – que havia na nova lógica como uma passagem do domínio do verbo ser para o verbo estar. Portanto, a língua inglesa seria insuficiente para descrever a nova situação, pois que necessitava recorrer a proposições apostas ao verbo, is on ou is at, enquanto, em português, nós dispúnhamos de um verbo exclusivo para a situação de relacionamento puro. Diz se, por exemplo, "São Paulo está ao sul do Rio de Janeiro” e não "São Paulo é ao sul do Rio de Janeiro". E, portanto, somente em português seria possível uma separação nítida entre o relacionamento puro e a inclusão em classes. Consequentemente: "A é pai de B” não é um relacionamento puro. E Vicente empolgava se com as operações sobre proposições relacionais, definidas por Russell e Whitehead, como algo de absolutamente novo e que viria a provocar o colapso completo de toda a filosofia anterior. Essa discussão se estendia pela complicada análise das relações em série, dos últimos capítulos dos Principia. Uma relação em série do tipo "A está à direita de B", "B está à direita de C” e "C está..." não parecia a Vicente do mesmo tipo que "A é sucessor de B”, “B é sucessor de C" e "C é sucessor...”. Parecia lhe que a possibilidade de utilização do verbo ser, nas relações do segundo tipo, comprometia a pura relacionalidade serial do primeiro. Não sei se tudo isso não se reduzia a puro ardor de mocidade, sem um valor objetivo. Mas, se por um lado, tudo aquilo não era senão um belo ardor de juventude, por outro, pelo menos no que sei, uma lógica do verbo estar ainda não foi feita; e, deveras, não o poderá nunca ser em língua inglesa ou alemã.

Logo depois da Primeira Guerra Mundial, um aluno de Russell, Ludwig Wittgenstein, publicou o seu Tractatus logicus-philosophicus, que introduziu nas questões lógicas o que Russell chamou de misticismo sintático. Sem dúvida, foi a partir desse livro que se constituiu o Círculo de Viena, não para segui-lo pari passu, mas para, na realidade, fugir ou superar o caminho de Wittgenstein. Vicente tomou conhecimento de Wittgenstein a partir de Russell, quando encontrou um comentário, num dos últimos capítulos da Introdução à filosofia matemática, onde ele diz não saber como definir tautologia e remete o leitor a uma estranha nota de rodapé: "A importância da tautologia como definição das matemáticas foi assinalada pelo meu antigo aluno Ludwig Wittgenstein que trabalhou no problema. Não sei se o resolveu e nem mesmo se ele está vivo ou morto." Essa inusitada nota, chamando a atenção para alguém que teria trabalhado no sentido de mostrar o caráter tautológico da matemática, seguida da expressão de indiferença pela sorte de quem o fizera, tocou profundamente Vicente. Era necessário encontrar Wittgenstein, pô lo em vida e saber o que dizia ele sobre a tautologia matemática. Aliás, Vicente, na época, já estava convencido de que o formalismo matemático era uma tautologia, da qual não se podia escapar. O Tractatus foi publicado em 1921, e não foi difícil encontrar um exemplar em São Paulo por volta de 1936. E assim Vicente encontrou Wittgenstein, que o colocou, pela primeira vez, diante de uma filosofia da linguagem.

No seu primeiro livro, publicado em 1940, Vicente Ferreira da Silva cita Wittgenstein, dizendo:

Todas as sentenças têm o mesmo valor. O sentido do mundo é exterior ao mundo. No mundo tudo é como é e acontece como acontece; nele, não há valor – e se o há, não tem valor. As sentenças não podem expressar nada “mais alto” (Hoheres ausdrucken).

Ora, isto soava aos ouvidos daquele jovem rebelde muito mais como uma acusação ao mundo moderno, destituído de valores, do que uma constatação lógica de que a totalidade dos fatos que constituem o mundo, como o quer Wittgenstein, é em si destituída de sentido e de valor. É preciso que se compreenda bem que a lógica e a teoria da linguagem no jovem Vicente são, antes de mais nada, armas de combate contra um mundo que não lhe agradava. Vivemos num mundo, pensava naquela época Vicente, constituído de fatos sem sentido e sem valor; nem verdadeiros nem falsos, eles somente podem ser tidos como válidos ou inválidos segundo a estrutura lógica das sentenças que os descrevem. Essa validade das sentenças era o que cumpria à lógica matemática analisar; mas ela, como o seu prolongamento científico, a matemática, não era senão tautológica. O mundo era um contínuo espelhar se, espelho contra espelho, e jamais seria possível encontrar aquilo que realmente não fosse imagem. Pirandello tinha razão no seu interrogar incessante sobre si mesmo: Uno, nessuno e centomila éramos todos nós e também o mundo. A última sentença do Tractatus quase o paralisou: "O que não podemos falar devemos deixar em silêncio." Mas Vicente foi arrancado disso pela poesia: "Le silence est un pardon / Plus triste", cita ele quase no final do seu primeiro livro. Viveu tão desesperadamente a secura do mundo da lógica que a própria lógica o conduziu ao mundo feérico do inarticulado − onde as palavras são forçadas a dizer o que não pode ser dito. Este mundo ele habitou desde então, enquanto viveu.


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1  Artigo publicado originamente na edição especial da revista Convivium, em homenagem a VFS: Milton Vargas. O jovem Vicente Ferreira da Silva. Convivium, São Paulo, v. 16, n. 3, p. 194-201, mai./jun., 1972. (N.O.)

 


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 

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