dossiê Vicente Ferreira da Silva

Uma Vocação Filosófica[1]

Julián Mariás





Em 1954 fui ao Brasil pela primeira vez. Celebrava-se em São Paulo o Congresso Internacional de Filosofia, comemorando o quarto centenário de fundação da cidade. Jamais me esquecerei da novidade, do deslumbramento deste país novo, da doçura verde-amarela dessa imensidão ao mesmo tempo agitada e lânguida que é o Brasil.

Aqueles dias proporcionaram-me algumas amizades que ainda me acompanham. O Secretário do Congresso — e do Instituto Brasileiro de Filosofia — era um homem da minha idade, uns dois anos mais jovem, não alto, mas forte, afável e concentrado, que produzia impressão de bondosa energia. Conheci ao mesmo tempo sua esposa, Dora Ribeiro, e a irmã desta, Diva. Em poucos dias, creio mesmo que em poucas horas, éramos amigos. (Na verdade, Diva o era já antes da minha chegada: nela eu descobri uma das minhas mais finas leitoras; passara, sem eu saber, muitas horas em minha companhia, nesses espaços irreais que são as páginas dos livros; depois, haveria de ser minha admirável tradutora ao português, fazendo com que muitos desses livros fossem plena¬mente brasileiros.) A coisa não terminaria aí, pois a amizade é contagiosa e tem a propriedade eucarística de poder repar¬tir-se ilimitadamente. Essa tríplice amizade paulistana ha¬veria de ampliar-se e desdobrar-se, a ponto de que São Paulo, onde sempre me demoro tão pouco, viesse a ser uma das cidades onde me sinto mais cordialmente acolhido, e que à distância mais saudades me provoca.

E, no entanto, esse trio originário de amizade estava destinado a durar pouco: Vicente Ferreira da Silva, o solícito Secretário do Congresso, marido e cunhado das irmãs Ribei¬ro, faleceu num acidente, no ano de 1963. Nascera em 1916, faltando-lhe três anos para completar meio século, e mais um pouco para cumprir a trajetória intelectual que prometia como não se tratasse de uma relação social, mas amizade pessoal, o núcleo paulistano não se dissolveu para mim com a morte de Vicente Ferreira da Silva. Continuou com Dora, com Diva, com os outros amigos. E desse grupo é inseparável a sua lembrança e a marca que nele imprimiu sua vocação filosófica.

Porque Vicente Ferreira da Silva foi, antes de tudo, uma vocação filosófica. Não era primariamente um professor ou escritor, ainda que os dois volumes póstumos de suas Obras Completas cheguem perto de mil páginas. Vicente era algo mais simples — e muito mais arriscado: um homem que tinha que filosofar para poder viver.

A qualidade humana de Vicente produzia a impressão de uma pessoa “ancorada” — não encontro palavra melhor. É a impressão que às vezes nos transmitem homens de sólida fé religiosa. Mas não creio que “solidez” seja a palavra mais adequada à religiosidade de Ferreira da Silva, sempre in¬quieta e estremecida, um pouco ansiosa. Em que estava ele ancorado? Ao evocá-lo, sobrevém-me nova impressão complementar: de movimento e impulso, como se sua massa esti¬vesse “gravitando” em certa direção. Amor meus, pondus meum, diria Santo Agostinho. Num livro que escrevi após a morte de Vicente, Antropologia Metafísica, falo de “instalação” e “vetor” como estruturas da vida humana.

Creio que Vicente Ferreira da Silva estava ancorado em algo que não é quieto e estático, mas que leva a mover-se, a avançar em alguma direção: é a forma que nele assumia a vocação filosófica. Não se vá esquecer de que Vicente era brasileiro, quer dizer, sul-americano, ibero-americano (ou hispano-americano, que significa o mesmo — Hispania ou Ibéria — recordando-se que os portugueses de Camões eram uma gente fortíssima d'Espanha). Nos países jovens, novos, a vocação filosófica é rara, pouco provável, porque não costuma ser necessária. Não quero dizer com isso que neles não se encontre muitas pessoas que se “interessam” muito, e vivamente, pela filosofia — talvez como em nenhuma parte do mundo de hoje; mas vocação é mais do que se interessar; é não poder fazer outra coisa, não poder viver de outra maneira; nada mais importar, exceto o objeto da vocação.

Se não me engano, consegui penetrar em sua intimidade, velada por uma grande reserva e considerável timidez, este era o caso de Vicente Ferreira da Silva. Leiam-se os dois volumes de suas Obras Completas2: além do saber, da erudição, da penetração, do “valor” intelectual desses escritos, o que neles se adverte é a seriedade, a atitude inconfundível do homem que está empenhando sua vida no que faz; ou, em outras palavras, que está fazendo, precisamente, a sua vida. 

Um indício do que digo é a relação da condição histórica de Ferreira da Silva e sua filosofia. A maior parte dos seus cultores no mundo hispano-americano tem uma tentação de convertê-la em reflexão sobre o Continente, sobre a variedade de homem aí produzida, sobre certas peculiaridades derivadas desta condição. Em outros casos, para evitar essa forma de fazer filosofia, prescinde-se inteiramente da situação de quem a faz, intenta-se uma filosofia “científica” que se poderia cultivar em qualquer outro lugar do mundo. A posição de Ferreira da Silva não se reduz a nenhuma das duas.
Tem clara consciência de que a filosofia é, principalmente, e até agora, uma criação europeia. A filosofia ocidental iniciou-se na Grécia, desenvolveu-se na Latinidade, associada aos estímulos judaico-cristãos, e amadureceu na Europa. Aí está o torso da filosofia, tal como suscitou a vocação filosófica de Ferreira da Silva. 

Por diversas razões, algumas bem justificadas, outras azarosas, sua atenção dirigiu-se, sobretudo, à filosofia alemã. Entre 1780 e 1930 a Alemanha foi, sem dúvida, o centro da atividade filosófica em todo mundo; a filosofia ocidental era feita por referência à alemã – ainda que esta fosse tributária de toda a tradição europeia, inclusive a mais recente; a única exceção notável foi a filosofia inglesa, que tem sido relativamente “dissidente” desde o século XVI, e criou uma tradição particular de certa autonomia, mitigada por estreita rede de “relações” que não conseguiram superar a incomunicabilidade. Na Alemanha recente, de fins do século XIX e começo do XX, há umas quantas figuras sem as quais seria ilusório fazer filosofia hoje: Nietzsche, Dilthey, Brentano, Husserl, Heidegger. 

É certo que quando Ferreira da Silva começa a ocupar-se, com o filosofar, por volta de 1940, esse predomínio da filosofia alemã já havia passado; mas a irradiação desse pensamento era gran¬de demais. E não nos esqueçamos de que a perspectiva do nosso filósofo estava condicionada pelo continente americano: a partir da América hispânica continuava-se avistando uma Alemanha que já não existia, assim como se continua vendo, da Terra, durante séculos, a luz de uma estrela já extinta. Ainda hoje são muitos os jovens estudiosos hispano americanos que empreendem a peregrinação filosófica rumo às terras germânicas, como se fazia ao início do século, embora já não se encontre ali o mesmo centro de irradiação.

Mas nem tudo foi miragem na predileção alemã de Ferreira da Silva. Ainda continua vivo Martin Heidegger, um dos grandes filósofos de qualquer tempo, que exerceu sobre nosso amigo uma indiscutível e justificada fascinação. Recordo minha primeira leitura de Sein und Zeit, em 1934, quando acabava de completar os vinte anos. Durante um verão inteiro encerrei-me várias horas por dia com o formoso volume, impresso em belos caracteres, de perfil gótico, do ilustre Jahrbuch de Husserl — o dicionário Langenscheidt ao lado. Quando terminei, dobrada a página 438, feita a derradeira marca vermelha em sua margem, tive a impressão de que já sabia alemão — tudo parecia fácil por comparação: Kant, Dilthey, Husserl — e de que havia alcançado uma culminância. Sem dúvida, não me pude deter ali, não pude ser heideggeriano, porque eu “vinha” de Ortega, o qual fora mais além de Heidegger. Ainda que as construções deste fossem com frequência mais amplas e envolventes que as de Ortega, o nível no qual considerava os problemas era menos radical; e, sobretudo, a filosofia de Ortega consistia (mais do que na ideia de vida humana, ou “minha vida”, que em algum sentido — só algum — pode comparar-se ao Dasein heideggeriano) na descoberta da razão vital, da qual não há nem vestígio no pensamento de Heidegger ou em quem não proceda de Ortega. Heidegger significava, pois, um maravilhoso retrocesso; maravilhoso, mas retrocesso   como o têm sido, menos maravilhosamente, quase todas as formas de pensamento propostas na Europa nos últimos quarenta anos. 

Vicente Ferreira da Silva não podia ver isso. Por isso digo que sua fascinação estava justificada. Se tivesse vivido mais, é provável que a tivesse superado, que viesse a integrar seu pensamento com outras formas realmente mais avançadas, mais cheias de futuro. De fato, permaneceu “ancorado” — usemos mais uma vez esta expressão — no âmbito pensamento heideggeriano.

Creio que ainda havia outra razão para isso: o Brasil. Vicente Ferreira da Silva tinha uma profunda vocação filosófica — razão pela qual não ensaiava especulações sobre “o americano”, mas procurava fazer filosofia —, mas sua vocação era circunstancial; tinha que filosofar a partir do Brasil. Sua circunstância primária era a de São Paulo, a cidade e o Estado, e o Brasil inteiro com sua diversidade, seus conflitos, seu mistério; e o continente sul-americano. Estava nas vizinhanças de uma selva — e como sentiu a significado de Holzwege, ainda com a distância da Floresta Negra à Amazônia! Estava rodeado de mitos, vivos, ativos, entrelaçados com a religião cristã, com a política, com toda a possível interpretação racional da realidade que fosse concreta, e, portanto, verdadeira.

O pensamento heideggeriano tinha natural aptidão vivificar a situação efetiva de um pensador instalado vital e não só geograficamente no Brasil. Lendo-se os escritos Ferreira da Silva vê-se até que ponto estava tentando “ler” um texto cifrado, desvelando um mistério; e como a realidade que o inquietava era em boa dose mítica, não é de estranhar que o seu pensamento tivesse uma raiz mitológica, que buscasse um acesso real à mitologia, para fazer com ela razão.

Acresce que a mente de Ferreira da Silva era aberta, acolhedora, curiosa, sem fanatismos nem exclusivismos. Aproximou-se com igual interesse ao pensamento francês, italiano, espanhol. Mergulhou na poesia inglesa e norte-americana; tratou de incorporar àquele torso de que falei tudo quanto de valioso se fazia no mundo inteiro.

Na verdade, Vicente Ferreira da Silva estava a caminho de si mesmo. Ainda não chegara à maturidade; nem poderia amadurecer aos quarenta e sete anos, pois à sua juventude biográfica haveria que acrescentar a juventude de sua terra de origem. Nós, europeus, já somos muito velhos, desde o início; para usar a expressão orteguiana, nossa circunstância é idosa, começa por sê-lo; a maturação corresponde só ao nosso eu (quando não acontece assim, é que se trata de um europeu desarraigado, que perdeu sua circunstância própria, sendo muito difícil que chegue a ser ele mesmo). Um americano, tem que percorrer um longo caminho para chegar até a filosofia; quer dizer, até a necessidade irredutível da filosofia; a seguir, tem que empreender um segundo trajeto, rumo à sua perspectiva pessoal e insubstituível. Daí o sentido do que Vicente disse dias antes de morrer: “Agora vou começar a escrever”.

É interessante reter essa última palavra. Vicente era também escritor. Sua vocação filosófica levou-o a descobrir que o filósofo, para “realizar-se” publicamente tem que ser um escritor. Adivinhou a conexão entre filosofia e literatura, o caráter metódico do literário e do poético, a função descobridora, desvelante, reluzente de beleza, instrumento da aletheia

Tudo isso prometia a “segunda navegação”, já em alto mar, de Vicente Ferreira da Silva; o azar, em sua forma mais literal, frustrou-o; mas sua intenção não morreu; pervive, multiplicada, prolongada em formas inovadoras — a realidade é sempre emergente e criadora — nesse núcleo amigo onde o recordo de vez em quando, nessa cidade dis¬tante e tão próxima que se chama São Paulo.


Madrid

_________________
1  Texto publicado na edição especial da revista Convivium em homenagem a VFS: MARÍAS, Julián. “Uma vocação filosófica”. Convivium, São Paulo, v. 16, n. 3, p. 183 188, mai./jun., 1972.

2  Obviamente, Marías se refere à já mencionada edição do IBF das Obras Completas em dois tomos.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 

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