dossiê Vicente Ferreira da Silva
Vicente Ferreira da Silva[1]

Vilém Flusser





Em desafio ao destino que se abateu sobre ele, qual ave estupidamente rapina para dilacerar lhe o corpo, representa Ferreira da Silva uma esperança para o pensamento brasileiro. O presente artigo é uma tentativa de contribuir para a apreciação de sua mensagem pelo público culto. O ensinamento ferreiriano aponta picos da especulação filosófica que são difíceis para quem, como quem escreve estas linhas, não tem a vivência imediata das premissas das quais Ferreira da Silva parte. Entretanto, o esforço de acompanhá lo em sua subida rumo a estes picos é promissor, já que no caminho surge uma visão da paisagem da atualidade, uma visão que podemos chamar de autenticamente brasileira. Ferreira da Silva é um filósofo brasileiro, e com ele o Brasil tomará parte na discussão filosófica ocidental com voz independente. Para apreciar a sua mensagem, esqueçamos os chavões do gigante que desperta e do subdesenvolvimento a ser superado, e lancemos um olhar sobre a cena brasileira, tal como ela se apresenta no conjunto da civilização ocidental. É uma cena sui-generis. Uma fusão de elementos alhures incompatíveis, que promete ser criadora de novos valores, está se processando neste país. Dessa fusão participam, com ênfase maior e menor, praticamente todos os povos europeus, um forte substrato negro que é aceito pelas elites com um mínimo de preconceitos, os povos do Extremo Oriente com parcela sempre crescente, e um leve aroma da população índia exterminada paira sobre este processo todo. O resultado é uma sociedade em formação, de caráter ostensivamente católico e latino, mas fundamentalmente influenciado pela magia africana e modulado pela estética oriental, uma sociedade faminta de realizações que articulem a nova personalidade que surge. Essas realizações começam a sair do terreno do possível e irrompem dramaticamente para dentro do território da realidade. Irrompem em forma de música, na qual o ritmo africano se casa com a tradição europeia. Irrompem em forma de pintura, na qual a brilhante cor tropical se casa com a visão estética oriental e o rigor formal europeu. Irrom-pem na forma da poesia e do romance, de maneira mais dificilmente analisável, já que muito mais cerebrina. E começam a irromper na forma do pensamento abstrato, pensamento este que deve servir, futuramente, de sistema de referência a todas as demais atividades criadoras. O pensamento ferreiriano é uma das fontes das quais esse sistema brota.

Exporei esse pensamento com base nos seguintes trabalhos: “Instrumentos, coisas e cultura” (Revista Brasileira de Filosofia), “A natureza do simbolismo” (Revista Brasileira de Filosofia), “Floresta Sombria” (Diálogo) e Teologia e Anti-humanismo, e com base em inúmeras discussões pessoais2.     Parto da seguinte premissa: todo (ou praticamente todo) pensamento filosófico ocidental está viciado por um ódio fundamental à natureza. Esse ódio tem sua origem nas religiões bíblicas e no orfismo. Estas estabelecem uma ordem espiritual, sobrenatural, em oposição violenta à natureza como conjunto de presenças divinas, isto é, em oposição  violenta ao paganismo. A história do Ocidente é a realização progressiva desse ódio, é o que Nietzsche chama de “niilismo platônico”. É a progressiva profanação da natureza. Em seu ódio à natureza, em seu esforço de humilhá-la, o homem ocidental se afasta dela e se opõe a ela. Assume, nesse alheamento, a posição de observador. Torna se sujeito, cujo objeto é a natureza. A objetivação do mundo da natureza, em oposição à subjetivação do mundo sobrenatural (“espiritual”) tem por consequência a transformação da natureza em conjunto de objetos definidos ou definíveis. A natureza se transforma em sistema de coisas, cada qual com seu lugar fixo. A natureza fica paralisada nesse sistema. Torna se manipulável. As coisas da natureza, humi¬lhadas; e enquadradas no sistema, tornam se acessíveis ao trabalho manipulador do “espírito”, desse sujeito sobrenatural da natureza. As coisas podem ser transformadas em instrumentos. Impelido pelo ódio à natureza, o homem ocidental a manipula, transformando a em conjunto de instrumentos, em parque industrial. A história do Ociden¬te é a progressiva substituição das “coisas da natureza” por instrumentos que são produtos do trabalho manipulador do espírito sobrenatural. A natureza fica aniquilada. A festa pagã, fundamento de toda civilização, é uma orgia na qual o homem se confunde com a natureza. A civilização ocidental acaba com essa festa. O judaísmo, esse primeiro passo, a proíbe. O orfismo a intelectualiza. O cristianismo, essa fusão das duas tendências antipagãs, a abandona com desprezo, já que o seu reino não é desta Terra. O Cristo é a superação e a humilhação da natureza pelo Deus Homem. O puritanismo com sua mortificação da carne é o cristianismo radicalizado. Com efeito, é nos países puritanos que surge a industrialização, essa mortificação da natureza. A industrialização é a realização radical do cristianismo. Nela o espírito sujeito (Cristo) subjuga e aniquila a natureza. As sociedades tecnológicas, e mais especialmente a União Soviética (já que professa a tecnologia conscientemente como alvo), são tentativas da realização total do cristianismo. A próxima vitória da tecnologia será o fim da história, como Hegel e Marx preveem corretamente. A natureza totalmente profanada e subjugada não deixará margem a nenhum acontecimento novo. O homem, totalmente alienado da natureza, e tendo totalmente transformado as coisas em instrumentos, não terá mais assunto. A vida será esvaziada de aventura, de grandeza, de exuberância, do excelso. A noite cinzenta do nulismo platônico encobrirá a humanidade num eterno retorno do sempre idêntico. O céu cristão ter se á realizado sobre a terra.

Entretanto, o ódio fundamental do pensamento oci¬dental face à natureza não é uma “epifania do divino” autêntica. No pensamento ocidental não aparece o divino. O pensamento ocidental é fundamentalmente negativo, embora disfarce o seu ódio em “amor ao próximo”. “Ser sujeito” não é uma forma autêntica de ser. É uma forma de negar e aniquilar o ser. É um alheamento, uma fuga. O pensamento ocidental, e, em consequência, toda a história do Ocidente, é uma fuga à natureza.

Felizmente o Brasil não é totalmente ocidental. Foi cristianizado apenas superficialmente. Elementos pagãos (no sentido ferreiriano) se conservaram. Temos, no Brasil, elementos festivos, por exemplo, o carnaval e o candomblé, nos quais o espírito não se subjetiva, mas nos quais o homem se funde com a natureza. Nessas festas pode-se readquirir a faculdade, perdida pelo Ocidente, do “pensamento simbólico”. Esse pensamento não humilha a natureza, não a paralisa, não congela as coisas. Pelo contrário, libera as coisas do peso do pensamento manipulador. A natureza volta a ser uma manifestação múltipla do divino. Volta a ser presença do divino. As coisas deixam de ser fixas (conceitos), mas voltam a ser vagas, cada qual abrangendo todas as demais, voltam a ser símbolos. A terra deixa de ser     aquele objeto fixo e manipulado pela geometria, para voltar a ser a deusa Gaia, de cujo colo materno, morno e escuro, surgimos, e a qual nos mantém com seu seio exuberante. A parreira deixa de ser uma planta a ser utilizada na indústria do vinho, e volta a ser encarnação de Dionísio, com seu séquito enlouquecido de bacantes, do coro trágico, volta a ser a encarnação do sentido exuberante e extático da existência. Pois este é justamente o característico do símbolo: não ser unívoco, como o é o conceito rígido, mas ser uma sinopse de muitos aspectos. A natureza, aceita como simbólica, volta a ser a própria presença, a revelação simultânea dos múltiplos aspectos do divino. No Brasil, este tipo de pensamento simbólico é novamente possível, e Ferreira da Silva nos convida a dele participar.

Quem não sentirá o atrativo desse convite? Quem não lhe sentirá a beleza e sinceridade? Quem não se sentirá tentado a acompanhar o pensador em seu avanço rumo a visões apenas vislumbradas, como seja o surgir de uma civilização nova, a superar autenticamente a tecnologia? Por certo, muitos são os argumentos que podemos mobilizar contra esta concepção do mundo em geral, do Ocidente, em particular, e mais especialmente dos elementos que perfazem o Ocidente, quais sejam o cristianismo e a tecnologia. Podemos por exemplo negar que a tecnologia seja a realização total do cristianismo, pela simples razão de que, sendo o cristianismo uma epifania autêntica, não admite realização total. Podemos argumentar que todo tipo de pensamento é negativo, e não somente o tipo ocidental, já que pensar é justamente “opor se a algo”. Podemos objetar que o pensamento simbólico advogado por Ferreira da Silva é um tipo de pensamento que terá grande dificuldade em passar pelo teste dos logicistas simbólicos, já que será desvendado como sendo “insignificativo”, isto é, oco. Podemos, em breve, argumentar para salvar o intelecto em geral, e o intelecto ocidental em particular, do ataque formidável que Ferreira da Silva lhe move. Mas, fazendo isso, estaremos defendendo a tradição ocidental contra um ataque novo, um ataque brasileiro. É uma nova personalidade no cenário filosófico que se torna articulada com Ferreira da Silva. É uma voz com a qual deveremos contar no futuro. O destino estupidamente brutal não conseguirá sufocá la.


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1  Vilém Flusser. “Vicente Ferreira da Silva”. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São Paulo: Escrituras, 2002. pág. 107-111.

2  Os trabalhos de VFS a que o filósofo Vilém Flusser se refere são os seguintes: FERREIRA DA SILVA, Vicente. Instrumentos, coisas e cultura. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958. p. 205 214. Separata da Revista Brasileira de Filosofia, v. VIII, fasc. II, abr./jun., 1958. _____. “A Natureza do Simbolismo”. Revista Brasileira de Filosofia, 12(48): 427-431, out./dez. 1962. _____. “Uma Floresta Sombria”, São Paulo, Diálogo, n°. 15, mar., pp. 3-16, 1962. _____. Teologia e anti humanismo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1953. 40 p


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

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