prosa

Lugar

Maria do Carmo

 


 

Ao Eterno

“......................Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?

Dize-mo, se tens entendimento.- (Jó 38:4)”

E o silêncio invadiu o espaço, num corpo de semblante inerte, frente à incapacidade de pensar; e no maior dos esforços o máximo que se poderia sussurrar, em sua frágil condição humana, talvez, fosse: ‘Tu o sabes’. E, ainda, assim, cair por terra implorando por teu favor seria um privilégio.

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Cronologia.

E o silêncio invadiu o espaço no tempo. Os tempos.

O Lógico.

E a sinfonia começara a inscrever os limites do seu itinerário, quando em batalha sua obra mais longa, imitara a textura intercalada das linhas descendentes dos pianos; breve aparição nas ansiedades dos rituais de passagens. O Contínuo, agora mensurável, desaparecia em proporções cada vez menores no convite à repetição, precisa. Começando o não cessar de vir sem ter lugar. Satisfação efêmera na travessia de uma busca ilusória: delimitar o impossível, derrubando ou estabelecendo o absoluto.

O Contínuo.

Assim, como na introdução do primeiro movimento, se iniciara os passos e eram simples; assim como, simples era, o trajeto insólito que conduzira até àquela oportunidade. Foi quando os olhos fechados mergulharam no ver que subitamente se deu lugar ao esquecimento, lembranças de um despertar inapreensível que nunca mais reencontrei. Esse era o Momento, em si mesmo, o instaurar de passagens por caminhos abertos entre a origem e o desprendimento.

O Momento.

Lentamente os olhos se abriram e assistiram ao brilho que iluminou o não-lugar da chegada, tudo era esplêndido, numa ordem de sucessão flutuante. O céu denotava, em seu chão, o dançar das cores; e, era sabido que o quê podia observar era um vago e limitado fragmento de sua precária visão. Ao redor, flores da terra emergiam ora sementes, ora arbustos, ora verdes e ora envelhecidas; e uma certeza de uma testemunha imemorável: todas secariam e consigo levariam sua ilusória glória, triunfo de breves turnês que designaram seus festivais nas variações dos enigmas, sem jamais perder o refinamento. Em seus semblantes, às flores, radiavam o presente de uma aspiração que se manuscrevia num pouco a pouco. Nesse entrementes, surgiram os Intervalos, enaltecidos pela distância escavada no agora; por fim, “Feliz Ano Novo”, esse era o desejo no tempo; e, possivelmente o tempo do desejo.

Os Intervalos

Em última versão, tema admirável, doce solo, como o vento norte que trazia a chuva, foi possível perceber que o florescer dessa passagem já me havia sido dado em tempo Lógico e Contínuo em Momento imediatamente anterior; sendo o mais-além quando se fez perene o que sempre estivera. E repentinamente, o sentido que sucedera no espaço fora revelado, sem apreensão ou conclusão, retornando na imensidão do não; e, assim, compreendi que eram os naipes orquestrais que se reestruturavam, pois o que poderia ter, ou não; conhecer, ou não; saber, ou não; eram e são apenas, os Intervalos entre o que escutava, pensava e silenciava. E de imediato, a profundidade da música caracterizou a ornamentação excessiva de seus compositores. A sinfonia indicara o aspecto transitório de sua existência, qual seja: A escritura dos a priori para induções a posteriori, elaborada de interpretações. Quando a isto se deu o nome de

Realidade.

Real-idade?

Basta!   

Senhor: concede-me e ensina-me, apenas, o suficiente para que de ti não me afastes, por falta ou excesso.

E, sempre, cair por terra, implorando por teu favor é um privilégio, o qual não mereço.

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O Eterno

“.............................................................................-(Isaías 43:13)”




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Maria do Carmo ...

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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