prosa

Jaina

Alberto Lacet

 

 


 Seria de um Jaina da planície do Ganges, que vê no futuro apenas o início das coisas, se descura do presente e só olha para o passado onde tudo se há de resolver - um que faz cruzamento de rios, atleta espiritual que demonstra estágio superior mergulhando numa margem enlameada para sair na outra que se tornou translúcida,
               para quem vida animal alguma, ou sua manifestação, não pode ser interrompida, por isso seus cabelos descem ao chão e as unhas se curvam e vão cruzar-se muitos anos depois dos dedos, e com as quais há de afugentar um tigre que está à suas costas (sem que precise voltar-se) com um único alinhar de dedos apontando naquela direção,
               que para não dar morte aos insetos que o perseguem usa uma máscara para não engoli-los, e rechaça-os, brandamente com um leque de palmeira.
               Não ara o solo, pois isso mataria seus pequeninos habitantes. Não se alimenta de mel, o que faria as abelhas morrerem de fome,
               que parece, as vezes, um homem enlouquecido, pois a qualquer momento pode dirigir-se em palavras às coisas mais insignificantes – uma pedra ou uma touça de caniços – numa exortação ao que pretendem ser, que julga ser um elefante animal venenoso, pois usa de uma serpente para tromba, que é capaz de fitar um macaco - no meio de um bando deles - e dizer-lhe o carma,
               que vê no tigre uma espécie de paisagem animada e útil, movendo-se num bambuzal não apenas para lançar alguma dúvida sobre sua existência, mas também para estabelecer comunicação entre as canas, servir como arranjo de expressão entre elas, - num exercício de linguagem certamente anterior à pictográfica, e no primitivo avatar de uma existência sem palavras, tendo apenas o vento como uma fonte em potencial, e nesse vento o farfalhar das folhas, e nesse farfalho um balbuciar de sugestões -, que se moverão sobre sua pele como pincel de escriba num palimpsesto, através de um intrincado jogo de luz e sombra em que uns talos se confundem com listras, outros se somam a essas, em que uma única cana pode apagar uma seqüência de listras, um feixe delas resumir o tigre a um terço, ou parte da cauda, etc. - e mesmo que, para um canavial, uma reunião de tigres seja exagero de linguagem, que um único e solitário tigre já seja muito para o que possa entabular, estará, mesmo assim, evoluindo para vir a ser tigre, e este, por sua vez, Jaina.
                 Que é um considerável poeta e talvez tenha sido uma das poucas vidas passadas de Pitágoras que este descuidou-se de ver em sonhos – que surgiria afinal a mais completa, e também a mais inverossímil, porem aquela que se tornaria no tempo a mais aceita narração dos fatos.
                 Inimigo dos deuses arianos, Vishnu e Brama - que considera demônios -, ortodoxo e fiel ao cânon Jaina que transfere o início das coisas para a consumação dos séculos, o homem santo narra suas visões aos seguidores numa choça de junco e esterco, às margens do grande rio.
              Faz, como não podia deixar de ser, uma descrição muito distante dos fatos.
Fala de uma multidão de idólatras com timbales e cítaras que seguem um elefante descomunal em cujo dorso aninham-se tigres - um elefante apinhado de tigres -, no alto de tudo há uma sela e sobre esta viaja um camarim de prata de cujas portinholas laterais esvoaçam cortinas de fina púrpura, e é dali que saem os muitos braços de uma deusa (um demônio) que distribui castigos e morte em várias direções, e só muito raramente atira safiras e rubis a uns poucos.
              Seu destino, ninguém ignora, são os quatro ângulos do vasto tabernáculo da terra.
              à frente do cortejo vão as várias delegações das províncias que irrompem pelas aldeias, e têm que correr a cada vez que o elefante lança um longo balido e apressa o passo. Atrás segue a turba de mercadores, faquis e encantadores de serpentes.
              Em suas faces deslizam as sombras de uma nuvem de abutres.
                Por entre as árvores, silenciosos e atentos ao menor gesto, uma horda imbatível de cães selvagens completa o hediondo séqüito.
              à sua passagem estancam os rios eternos que jamais terão seu nirvana.
               Serpentes erguem-se numa dança,mas a divindade lança-lhes, num gesto, invisíveis dardos e as transforma em finas colunas de fogo.
              Aves se flagelam contra carvalhos e salgueiros.
                Vez ou outra eclode súbito clamor que logo esmaece no meio da algazarra, com uma fenda que se abriu no chão e há engolido parte dos fiéis, ou das delegações.
              A própria multidão vai cessando de existir.
               Os tigres se despejam sobre ela.
                 Por um momento o céu escurece de abutres, mas o elefante com a tromba enrijecida segue distribuindo hálito de pestilência e morte, e só muito raramente borrifa água de lavanda sobre alguém escolhido a esmo.
                 Por fim, os deuses ancestrais do mundo – nenhum deles entre os trazidos pela raça de homens cruéis e sacrílegos cuja cor de pele veste o Himalaia - enviam, dentre os que não se deixaram corromper, um homem santo, o primeiro a fazer cruzamento de rios, para que purgue todo mal, restaure o bem sobre a terra e dê um fim à criatura terrível, e quando o eleito conclui a missão vê-se que o êxito é completo e o céu volta a estar limpo.
              O elefante jaz por terra.
              A deusa é destronada.
              Os tigres dispersos. Ou transformados em bambus.
                Fala com mansidão e gravidade, o tom é baixo, quase cerimonioso, depois de uma ligeira pausa que parece estudada, segue-se um floreio de retórica, interrompendo-se as vezes para entoar algum canto sagrado, fazer alguma oração, remexer no pequeno fogo de junco seco que cozinha a sopa de ervas e raízes, como alguém atento a tudo e a nada ao mesmo tempo, sem nenhuma preocupação de tempo ou lugar para sua imagem– pois sabe que ela existiu e existirá em todo quadrante abaixo da abóbada celeste que segue sustentada por quatro elefantes -, por acreditar piamente que muito do que um dia será nela já foi, e muito antes de deixar de ser o que já era então uma coisa muito diferente da outra.
                Porque, para um Jaina, é preciso lembrar, não há conceito de história, não existe tal palavra. Para ele tudo não passa de uma imagem que se deixa ver ou se furta, e apenas aos deuses cabe interferir na montagem de alguma delas, mas antes, porem, que se venham a decidir muitos astros terão perdido a rota, montanhas emergirão de vales, desertos cruentos abrir-se-ão das entranhas do oceano, e durante o longo tempo (ara) de sua dominação quase sempre lhes será indiferente que um elefante atropele ou não comitivas, ou que apague serpentes com jatos de água de rosas, e tanto faz tigre voltar-se contra ídolo como este fulminar abutres, mercador apossar-se de jóias ou ser atacado em silencio por cães invencíveis, cratera engolir faquir que buscou flagelo nas árvores ou rio sagrado levar multidão profana com timbales e cítaras e tudo.
                E tudo gira mesmo em torno de 3 ou 4 imagens primordiais (embora Fu Hsi, no reino de Chin, tenha proposto 8 delas, que se desdobram em 64).
                Parece saber que os seguidores repetirão seu relato e o deformarão infinitamente ao longo do tempo, que, de um jeito ou de outro, isto fará com que vá aproximando-se da verdade, e somente da verdade, pois é no futuro que se encontra o verdadeiro início das coisas.
                Ensina aos jovens Jainas que se verdadeiramente queres ensinar para os filhos do amanhã, diz hoje uma grande mentira, se queres enganá-los, fala a verdade, porém os fundamentos da Criação são como algumas palavras, eternas e imutáveis, e por isso cada nova transformação, toda verdadeiramente nova transformação não pode prescindir delas.É um início que traz de volta o espírito Criador e o justifica diante si e das criaturas.
                 Não sendo mais que o resultado de uma nova combinação de palavras, de um arranjo surpreendente de palavras, daí que nem tudo que se pensa ou diz deva ser escrito, sujeitar-se ao cárcere da escrita, sob pena de parar o movimento da Criação, que é divino e não conhece limites, etc.
                  Essas coisas ele diz aos neófitos que sonham trilhar o caminho que os levará um dia, humildemente, a iluminar seu primeiro córrego – fazer o primeiro vau.



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Alberto Lacet nasceu em Teixeira-PB, em 1954. É pintor, ilustrador, poeta e ficcionista.

Site: www.albertolacet.com


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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