prosa

Chiclete de Lua

José D'Assunção Barros

 

 


.... A primeira vez que ele achou que Lua queria comê-lo foi em seu próprio enterro. Não no seu enterro definitivo. É que, no meio do choro da viúva, em pleno velório, ele – o defunto – acordou de mais um dos seus ataques catalépticos. Adiou a morte, portanto. Não é preciso dizer que foi um Deus nos acuda! O morto voltava ao mundo dos vivos! Depois um doutor de gaveta declarou, para a rádio local, que um ataque cataléptico não era coisa assim tão rara. Podia ser novidade lá – pr’aquela “gentinha de interior”... – De qualquer maneira, o “Seu Dino” ficou conhecido no lugarejo. Não é sempre que se tem notícia de um ataque daqueles, cata-o-quê, mesmo? Enfim! Não é todo dia que um vizinho nosso, da mesma cidadezinha no interior, morre e depois volta à vida.

A viúva – digo, ex-viúva – desdobrou-se em carinhos com um marido tão bom, capaz de vencer a própria morte para não abandonar a família. O prestígio do professorzinho cresceu de noite para o dia – a vizinhança passou a tratá-lo com um respeito descomedido, até então só dispensado ao prefeito, ao vigário, e a mais uns dois ou três homens ilustres. No princípio até chegavam repórteres da capital, atrás de uma entrevista com o “homem que regressara”.  Queriam saber se ele permanecera consciente no Além. Esperavam, desta forma, obter uma espécie de comprovação definitiva acerca da “imortalidade da alma”.

O Dino, para surpresa, recusava-se a falar no assunto. Avesso que era a essas badalações da imprensa, parecia interessado em esconder algo. Nem Dona Tereza – esposa do ilustre – conseguiu convencê-lo a dar a tão falada entrevista. Irredutível, o ressuscitado mal aceitava as honras que lhe dispensavam. Ia, mas eqüidistantes de tudo e de todos... Começava-se a comentar que o Professor tinha se encontrado pessoalmente com o Demônio, com quem negociara a própria alma. Se insistiam muito no assunto – nesta conversa enjoada de querer saber o “depois da morte” – o mestre desconversava, dizia que iria pensar na possibilidade da tal entrevista.

Dona Tereza, a princípio, apreciou bastante a recém-notoriedade do marido. Não fazia cinco anos que estavam na cidade, e durante esse tempo não tinham feito um amigo. Contavam as más línguas que o Dino era um desequilibrado em recuperação, ali naquele fim-de-mundo por exigência médica. E ninguém quer ser amigo de um louco em potencial ... Mas, depois da “morte”, tudo mudou. Redobraram-se as atenções para com o casal que viera de longe. Dona Tereza adorava ser o centro das pequenas conversas de esquina. Quer dizer, a mulher do “centro”!

Mas o fato é que, amigo ou não do Tinhoso, o Dino depois daquilo se tornou uma figura esquisita. Deu baixa no emprego, aos poucos foi se afastando de tudo – até se transformar em uma espécie de eremita, entrincheirado no mistério que envolvia a sua falsa morte. Mal cumprimentava os vizinhos – por vezes se trancava dias em um quartinho escuro, olhando através de um telescópio que apontava para as estrelas, só interrompendo para as refeições que lhe vinham debaixo da porta. Dona Tereza já não sabia mais o que fazer com o marido, que se recusava até mesmo a ir à missa! Será que era porque Deus não existia? Ou seria uma cláusula do seu contrato com o Diabo? Não raro o marido ‘ex-defunto’ acordava aos berros no meio da noite, pálido, olhos muito redondos – gritando que a Lua queria comê-lo! Mas nunca contava o pesadelo inteiro, guardião do segredo que trazia do túmulo.

Um dia, Dona Tereza resolveu botar tudo em pratos limpos. Obrigou-o a lhe contar, em todas as linhas e entrelinhas, o que acontecera em sua “ameaça” de morte.

— Terê! Você promete que não espalha?

— Meu bem, você conhece mulher mais reservada que eu?

Não conhecia. Acomodou-se melhor na poltrona; olhou em torno: a sala sem muita luz, finzinho de tarde desenhando-se na janela oposta – moldura certa para um mistério. Pois bem (começou):

“Depois do meu desencarne, eu me vi reduzido à curiosa condição “alma-penada”. Assombrado, via as pessoas sem que elas me vissem, lia seus pensamentos – chequei a acompanhar o meu próprio velório! Fiz, é claro, as perguntas que todo morto faria numa ocasião daquelas. Será que Deus existe? O Diabo? Marx? Cadê o ópio do povo, para eu dar uma pitada? Mas as horas passavam e – nem sombra do Céu, nem sinal do Inferno. E eu ali, bisbilhotando as idéias alheias, transparente, invisível, impossibilitado de filar os salgadinhos que eram servidos em grandes bandejas, ao redor do meu corpo inerte. Um sufoco!

Foi aí que tudo aconteceu. Senti uma espécie de “chamado” vindo de cima. Seria Deus? Olhei para o céu; via a Lua, branca redonda, enorme! Tive a terrível impressão de que o satélite era um ser vivo! Nesse ponto comecei a flutuar, como se fosse atraído por aquele colossal eletroímã.  Mulher, você não pode imaginar os calafrios que me passaram pelo espírito enquanto eu me dirigia, devagar, para aquela longínqua “boca”.  Eu sabia que, assim que chegasse lá, estaria tudo terminado. Ignorava de que maneira, mas algo me dizia que seria o fim. Então, ouvi uma voz.

— Vê? A Lua tem fome...

Olhei perto. Vi um homem, ou o espírito de um homem. Pude perceber que o pobre estava em condições idênticas às minhas – e que ia sendo sugado da mesma forma para o alto.

— O Grande tamanduá nos chama...

Disse-me. “Tamanduá”... Aquela palavra chocou-se com algo em mim.  Um pesadelo antigo? Uma canção de ninar, ouvida na infância?

— Faltava tão pouco... Se eu tivesse vivido mais alguns anos, tenho certeza de que teria conseguido despertar, imunizar-me contra o magnetismo da Lua...

Lamentava o coitado, quase chorando... Interrompi suas lamúrias:

— Amigo, pode me explicar o que está acontecendo?

— Não percebe, infeliz?!! Nós estamos indo para o Inferno! Para a extremidade do mundo – para a treva exterior, onde haverá choros e ranger de dentes!!!

— Como!?? Que dizes?

— A Lua, mano – a Lua! Nós vamos servir de alimento para a Lua.

Compreendi, finalmente, o horror do meu colega de infortúnio. Nós éramos as formigas! – nós, a humanidade ingênua, vaidosa, adormecida. Nosso tamanduá era a Lua! Olhei ao redor... Milhares de almas – e não apenas de homens, mas também de animais e plantas – eram atraídas pelo imã lunar.

Ouvi mais uma voz, ao meu lado. Era um senhor já idoso. Parecia um sábio:

— É isso, sobrinho... Essa é a verdadeira função da vida orgânica sobre a Terra: somos um gigantesco acumulador de energias! Energia esta necessária ao crescimento da Lua, essa terrível e faminta deusa! Tudo o que vivia na superfície do globo – da mais humilde bactéria ao mais arrogante dos sábios – serve de alimento ao satélite. No instante da morte, todos os seres vivos liberam certa quantidade de energia que os animou. Essa energia – o conjunto de todas essas almas – é atraída por um irresistível poder magnético! Sobrinho... ai de nós! Ai de nós, almas possuidoras de certa soma de memória!!! Melhor que fôssemos animais irracionais! Teremos que assistir, em plena consciência, a todo o processo de digestão lunar! Ficaremos armazenados na Lua sob a forma de vida mineral, por um tempo incomensuravelmente longo (como num imenso frigorífico) até que, por fim, a Lua nos coma!

Era terrível! Tragicômico... Todos os sistemas religiosos do mundo – todas as promessas de paraísos, nirvanas, campos de caça felizes – não eram mais que uma grande ironia! Canções de ninar para os homens! Embalavam o sono da humanidade, iludiam os indivíduos de pertencerem a uma espécie animal privilegiada, capaz de uma evolução espiritual à parte. Mas agora eu sabia que a evolução da humanidade, pelo menos para além de uma ínfima porcentagem, não era nem mesmo possível... isso seria fatal para a Lua! E se a Lua morresse de inanição, a própria vida na Terra também pereceria, já que esta perderia toda a razão de existir!

A essa altura, ouvi alguns gemidos. Olhei. Nosso “grupo de almas” já estava bem mais próximo da Lua, àquela distância já enorme. Dava prá ver as crateras – tudo! Nem sombra de Ogum. O Dragão dormia? Mas pudemos sentir que havia milhões de almas armazenadas no minério lunar – uma quantidade formidável de energia vital, presa ao satélite por força de um magnetismo irresistível! De lá vinham os gemidos que ouvíramos! O Inferno era ali – debaixo das crateras daquele organismo vivo, que haveria de sugar a todos nós! Alguns começaram a se desesperar, em vão se debatiam – enquanto a Lua parecia dar boas-vindas à nova leva de almas que chegava...

... E foi aí que, inexplicavelmente, eu comecei a retornar... Senti que era puxado para trás, atraído de novo para a Terra, para o ponto do qual partira. A Lua foi diminuindo... transformando-se de astro em bola de futebol, depois em bola de bilhar. Eu fora poupado daquela sinuca! Mas os outros mortos não tiveram a mesma sorte: Ninguém, nunca mais, os veria!

Acordei no meio do meu próprio velório, coberto de flores ... ”

Dona Tereza encostou-se no costado duro da cadeira, de onde escutara pacientemente a estranha narrativa. Não sabia bem o que dizer. Para preencher aquele instante de perplexidade, encheu um copo com a água de uma jarra que tinha ao alcance da mão, numa mesinha ao lado. Bebeu sem ter sede nenhuma, enquanto olhava um pedaço triste de céu na moldura da janela, como se buscasse ali inspiração para dizer algo naquele instante confuso. Hesitou. O Professor curvou-se sobre ela. Tocou-lhe o rosto:

— Terê! Você acredita em mim, não acredita?

— Claro, amor. Mas não pensemos mais nisso... Vamos dormir, está bem?

Naturalmente, D. Tereza não levara a sério a história do marido. Também pudera! O homem tinha antecedentes psicóticos e neurastênicos! Estava ‘curado’, é certo... Pelo menos assim vinha atestado no laudo psiquiátrico que tinham trazido da capital. Mas quem já foi louco uma vez – está sempre sujeito a uma recaída! Além do quê, o marido andava mesmo estranho desde que tinha morrido. Enfim, Dona Terê preferiu não pensar mais naquilo. Havia coisas mais importantes no seu repertório de preocupações... Por exemplo, as reservas econômicas do casal começavam a escassear, pois o Dino não arranjara mais nenhum emprego depois que pedira demissão do ginásio. A astronomia caseira a que passara a se dedicar obcecadamente, depois da morte, não iria lhes pagar as contas, a carne, o pão. Dona Terê quase implorava ao marido que fosse buscar um emprego na prefeitura. Seria-lhe fácil, tinha um prestígio que só têm os mortos. Mas o Dino não escutava, continuava olhando o céu do seu quartinho escuro, muito preocupado, assombrado, como se adivinhasse o fim do mundo. Se não estavam passando fome agora, era porque tinham alguns trocados guardados, premonitória iniciativa de Dona Terê no tempo das vacas gordas. Mas isso não duraria a vida inteira. O pacote de sal de cozinha já passava da metade...


*

Dias depois, bem cedinho, havia uma multidão enorme em frente ao sobrado dos “Dino”. Toda a cidade parecia estar ali, do mendigo da praça ao prefeito. Também muitos carros de reportagem, unidades móveis de jornais e emissoras de cidades próximas – e até da capital! Toda uma sorte de forasteiros – grupos de padres, cientistas, curiosos – comprimia-se na pequena praça e disputava o exíguo espaço com os curiosos locais. Em meio a um burburinho infindável, todos olhavam para o pequeno sobrado – ainda de janelas fechadas – como se estivessem examinando uma nave espacial. Falava-se baixinho, um zumzum de mosca, como se houvesse um temor de despertar os “extraterrenos”.

às oito em ponto soou, britânico, o despertador dos Dino. Dona Terê levantou, sonolenta ainda. Foi abrir as janelas da casa, como de hábito, para que a luz do sol penetrasse democrática em todos os aposentos – menos no quarto de empregada, cômodo mal localizado na sombra e infenso à luz da manhã. Desapertou os trincos da janela da sala, empurrou as duas madeiras. Assim que colocou a cabeça fora a multidão inquietou-se, percorrida por uma inquietante onda de cochichos. Quando a dona da casa perguntou o que significava aquilo, não houve resposta – burburinhos apenas. Foi chamar o marido sob os lençóis, ainda no sétimo sono. O Professor despertou, com a insistência rara da mulher. Limpou olheiras, calçou chinelos. Foi ver, na janela, a bagunça. Voltou branco:

— Terê! Você contou para alguém?

Dona Terê percebeu que o marido referia-se ao pesadelo lunático que tivera durante a morte:

— Por Deus, não! Iriam pensar que somos loucos!

A campainha tocou. Inquiridora. Porta-voz da multidão que se escondia lá fora, nas calçadas telhados e carros de reportagem, com aquela docilidade peculiar às massas enfurecidas. O Professor foi ver. Pensou duas vezes antes de torcer a maçaneta que o separava dos olhos curiosos que o sitiavam. Pôde enxergar pelo entreabrir da porta a silhueta de dois repórteres que insistiam em uma entrevista: “O Senhor Confirma essa história da Lua?”. O Dino recusou-se, polidamente, a falar. Antes de fechar a porta, entreviu pela fresta um grupo de pessoas – do outro lado da rua. No meio estava a empregada da casa, muito entusiasmada, falando pelos cotovelos. O Professor compreendeu, num relance, o que tinha acontecido. Na certa a criada havia escutado sua conversa com Tereza – e pronto, dera com a língua nos dentes! Ouviu-a dizer a um repórter:

— Tô dizeno, doutô! O Professor viu a Lua comer toda aquela gente.

Voltou para a sala. Sentou-se na poltrona, junto ao telefone. Disse à Dona Tereza:

— Foi a empregada...

— Mas que povo besta é esse? Será que alguém está acreditando nessa história ridícula?

Dino olhou-a com reprovação:

— Quer dizer que você não acredita? Pensa que estou louco??!

Antes que Dona Terê respondesse, o telefone tocou. Dino atendeu.

— Alô?

— Professor Dino? Vamos direto ao assunto. Meu jornal está disposto a oferecer uma boa quantia em troca de uma entrevista exclusiva! O senhor tem cinco minutos para decidir, mais ou menos o tempo que o carro da reportagem levará para chegar aí. Clic.

Dona Tereza, escutando aquilo, começou a tagarelar. Pôs-se a dizer ao marido que ele não tinha direito à recusa. Afinal, fosse ou não fosse uma história absurda, produto ou não da sua loucura, ela poderia tirá-los da miséria que se aproximava. Pois o Dino nem se coçava por um emprego. Ele, que se buscasse acharia – único homem a gozar em vida o prestígio da própria posteridade, póstumo que era de si mesmo. Dona Tereza se exaltava enquanto dizia: “Então, homem? Se você não pode arranjar dinheiro de uma forma, vá consegui-lo contando mentiras!” E apontava o pacote de sal, insinuando os dias contados – como areia de ampulheta!

Era a primeira vez que Tereza lhe falava naquele tom. Mas o Professor estava preocupado demais para considerar aquilo, mergulhara numa reflexão de segundos.

Quando ouviu, lá fora, a buzina da reportagem, já tinha tomado sua decisão.

O povo abriu passagem para o póstumo, como se ele fosse uma espécie muito rara de marciano. Não se pronunciou palavra, até que ele entrasse no carro da emissora. Depois sim, um grupo de padres começou a atiçar umas beatas contra o herege. Onde já se viu? Negar a existência de Deus – do paraíso celeste! Aquele ateu safado ainda era capaz de inventar histórias fantásticas! As beatas chegaram a pensar em apedrejar a combi. Foram contidas pelos policiais – a violência legal. Finalmente o veículo arrancou, depois de esquentar o motor, abrindo passagem pela multidão. Pegou a rua principal e depois a estrada, já que a emissora de TV que comprara o relato do Dino ficava em uma cidade vizinha, um bocado maior, e a mais ou menos uma hora de distância. Dona Tereza observou, da janela do sobrado, a combi desaparecer no horizonte da estrada. Talvez as “histórias” do marido servissem para alguma coisa, enfim...


*

O programa – a entrevista do Professor Dino, o “póstumo de si mesmo” – foi transmitido para diversas cidades. Desnecessário repetir aqui a narrativa do Professor, uma vez ter sido ela bem semelhante àquela feita à Dona Terê. Muito naturalmente, escandalizou a platéia e os entrevistadores, que nunca tinham escutado coisa tão absurda. O que pretendia aquele louco? Será que desejava, com aquela história ridícula, derrubar todos os sistemas religiosos e metafísicos que a humanidade construíra com tanto esmero, através dos séculos? Era curioso examinar as expressões faciais das pessoas, à medida que o relato do Dino evoluía. Quando chegou à parte final – aquela em que declarou ter escutado com bastante clareza os gritos e gemidos das almas aprisionadas no minério lunar – o público reagia de maneiras diversas. Uns riam. Outros se escandalizavam. Alguns permaneceram indiferentes – era “apenas um louco”. Mas em geral havia uma franca hostilidade de todos para com aquela figura estranha, que expunha despudoradamente seus pesadelos heréticos e fantásticos.

Alguém perguntou, sem procurar disfarçar um risinho debochado que escapulia pelo canto da boca:

— E o que deveremos fazer, se quisermos escapar ao destino de virar “chiclete da Lua?”

O público caiu na gargalhada. Dino, sem perder a compostura, disse não saber, ao certo. Tínhamos que nos esforçar, talvez, para adquirir uma alma resistente, um espírito capaz de vencer o poder magnético da Lua. Tínhamos que despertar do nosso sono orgulhoso, compreender que fazíamos parte de um universo antropófago, onde tudo comia tudo. Sua experiência traumática lhe deixara um palpite de que havia, em alguma parte, homens privilegiados que tinham escapado àquele terrível destino, mediante esforços individuais.  Certo, não os vira. Mas devia haver, ainda que fossem muito poucos. Mas não é, certamente, rezando – disse ele – que vocês escaparão a essa regra geral! É preciso que façam um trabalho sobre vocês mesmo.  Mas, na verdade, eu pouco ou nada sei sobre isto. Também eu, conforme lhes contei, quase fui engolido pela Lua...

Nisso surgiu – vindo da platéia indignada – um desses religiosos fanáticos. Daqueles que, escoltados por dois ou três querubins, conversam com Deus em praça pública, sabem a data certa do fim do mundo e conhecem o caminho do Inferno. Saltou sobre o Dino, as mãos dispostas em garra. Queria estrangular, de qualquer maneira, o herege – o ímpio. A segurança foi acionada — tiveram que livrar o Professor das mãos do fanático, embora todos estivessem torcendo pelo último. De qualquer forma, o programa teve que sair do ar. Vieram os comerciais e a entrevista foi encerrada em meio àquela balbúrdia.

Na saída, depois de ter passado na tesouraria para apanhar o cachê, o Dino deparou-se com um grupo grande de pessoas. Esperavam-no do lado de fora da emissora. Calculou logo que tencionavam agredi-lo – por sorte não o tinham visto ainda. Deu meia-volta, entrou de novo no prédio. Observou que havia uma saída lateral – devia dar para um dos lados do quarteirão. Saiu por ali, não havia ninguém esperando.

Ficou curioso a respeito da pequena multidão – seriam fanáticos? Vira um padre entre eles. Resolveu examiná-los de longe. Deu duas voltas e posicionou-se em uma esquina escondida, de onde podia observar tudo sem que ele mesmo fosse visto. Assistiu à multidão apanhar por engano um passante, pensando que fosse ele. Quase lincharam o homem. Depois perceberam o erro – o Dino era mais alto, não era calvo, nem usava bigodes. Pediram mil perdões, encabulados – e acabaram se dispersando. O Professor, da sua esquina estratégica, ficou apavorado. Sentiu que a partir daquele instante a sua saúde correria perigo. Nunca deveria ter revelado, publicamente, a verdadeira história de sua morte...

Era óbvio que aqueles homens – adormecidos por uma civilização que os ninara com suaves contos de fada sobre os bem aventurados destinos dos homens mortos – ainda não estavam prontos para aceitar a idéia de que eram personagens de uma “antropofagia oswaldiana”. Os índios, os povos selvagens da África, as tribos primitivas do Oriente – sabiam-no, ou pelo menos desconfiavam de que não havia nada “tão glorioso” no destino humano. Erguiam monumentos à Lua, promoviam cultos orgíacos onde se sacrificavam aos seus deuses, comiam-se uns aos outros – num ritual de exaltação ao destino inevitável que os aguardava depois da morte. Mas os civilizados, os inventores da máquina e da técnica, não eram capazes de admitir a sua própria mecanicidade. Nem de reconhecer que a Natureza não lhes reservara nenhum lugar especial no universo, apesar do intelecto que ostentavam.

E, pensando bem, seriam capazes de cometer sabe-se lá que temeridade se um dia descobrissem a verdade. Poderiam imaginar uma vingança, dessas bem humanas, como atirar uma bomba atômica no organismo lunar – sem saber que no dia em que a Lua deixasse de existir a própria vida orgânica sobre a Terra fatalmente se extinguiria, inútil que se tornaria diante dos objetivos planetários superiores.

O Dino ia começar a divagar sobre o que deveria fazer a partir daquele momento – já que lhe tinha ficado bem claro que ele e Terê corriam riscos de vida – quando sentiu um toque no ombro. Tremeu na base – seria um algoz? Uma impressão sempre o perseguira, depois que voltara do túmulo. Sentia-se um quitute – uma maçã entre os dentes de um porco assado. Mas agora ainda tinha o agravante de ter assegurado a antipatia do porco, ao revelar o destino inglório que o esperava na boca dos convivas. Os convivas eram o Satélite, é claro, com suas rochas brancas de dez mil bocas. O Professor virou-se para ver quem lhe tocara o ombro, preparando-se para o pior. Um susto. Viu um homem muito estranho, já idoso – e quase albino.  Tinha os olhos penetrantes, hipnóticos. Parecia um lunático! Ouviu quando ele lhe disse, com uma voz meio rouca:

— A Lua não está gostando nada dessa agitação toda que você está fazendo. Assim, ela terá que comê-lo antes do tempo ...

— Mas...

— Quer um conselho? Guarde em segredo o que você descobriu...

Esfregou os olhos. Olhou de novo. O homem tinha de fato desaparecido. Ou então nunca existira – alternativa na qual ele estava mais inclinado a acreditar. Obviamente, fora uma ilusão criada por seu espírito hipertenso. Uma alucinação – coisa explicável em qualquer manual barato de psicologia. Dois minutos depois o Dino já não se lembrava mais, sequer, do rosto da sua alucinação, que lhe sumira por completo da memória. Viu um telefone público. Para lá se dirigiu com a intenção de fazer uma ligação interurbana para Dona Terê. Entrou debaixo da orelha, discou rápido os números de casa. A esposa atendeu – contou ao Dino que, não fazia dez minutos, alguém tinha atirado um tijolo na janela deles, deixando o vidro em pedaços. Por sorte ninguém se machucara. Só a empregada, que se cortara em um caco de vidro. Concordaram sem muita conversa que teriam que se mudar, talvez para um lugar onde o Dino não fosse conhecido.  Dona Terê sugeriu um ponto no mapa da Bahia, onde morava um irmão seu...

Depois de devolver o telefone ao gancho, o Dino deteve-se em um pensamento. Pobre Terê, tão aristocrática... Com toda a sua classe, com todo o seu sangue falsamente azul, com toda a sua moral burguesa – e mesmo assim seria comida pela Lua. Ficaria grudada no queijo lunar, juntamente com a empregada que se cortara com o caco de vidro, com o mendigo que recebia dominicalmente a sua esmola arrogante, com todos os ricos e pobres do mundo, à espera da desintegração do espírito...

Quando deixou o orelhão, já era noite alta. O céu tinha estrelas, a Lua parecia um sorriso, a zombar do mundo...


*

A população de Salamandra do Norte recebeu o Professor com bastante entusiasmo. Já sabiam que o homem tinha morrido e depois ressuscitado – mas ignoravam por completo a entrevista em que ele revelara, entre outras coisas, que a humanidade não passava de “comida de Lua”. O Dino estava, portanto, na confortável e prestigiosa posição que tivera antes de revelar o que se passara em sua morte.

Podia, assim, à luz das experiências anteriores, poupar-se de cometer os mesmos erros.  Sabia, por exemplo, que – se quisesse conservar a saúde – deveria guardar completamente segredo sobre aquelas coisas. Os homens ainda não estavam preparados para encarar a sua própria nulidade, a sua estupidez ... Se lhe perguntassem alguma coisa sobre sua experiência “póstuma”, teria que se calar – ou então inventar alguma história bonita. Diria que conversara com Deus, tomara um dedo de chá de sumiço com Padre Cícero, compusera um samba com São Benedito. O importante era não ir de encontro aos paraísos que aquelas pessoas construíram com tão comovente esmero em séculos e séculos de carolismo tolo ...

O irmão de Dona Tereza era o prefeito da cidade. Recebeu a irmã e o cunhado com canapés e banda de música.  Nunca uma personalidade tão ilustre – um homem que regressara do além – tinha pisado em Salamandra do Norte. O povo do lugar olhava o Professor com o mesmo respeito que deviam a um santo. Nem imaginava que o ilustre era um herege, trazendo consigo sonhos fantásticos e absurdos! O único a par de tudo era o prefeito, que naturalmente jurara segredo à irmã. Depois das festividades de boas-vindas, chamou o Dino para uma conversa:

— Cunhado! Eu vou te propor um negócio da China.

— Vermelha?

— Formosa...

Ninguém na cidade soube ao certo o que foi conversado naquela noite. Senão que devia estar relacionado com uma estranha construção que começou a ser erguida no dia seguinte, no ponto nobre de Salamandra. Era uma espécie de “Abaitolá”. Uma tabuleta dizia que a partir daquela obra, Salamandra do Norte teria o privilégio de se tornar o centro de todas as romarias e peregrinações do mundo, pois Deus a tinha escolhido para sua capital – espécie de embaixada do Céu naquele mundo de privações e sofrimentos ainda apartado da companhia mais imediata do Todo-Poderoso.

O Dino passou a andar com um turbante exótico – adotou um nome novo: ‘Senhor Matreiro’. O povo o tratava com uma admiração desmedida. Ninguém cruzava seu caminho sem pedir-lhe uma benção. Faziam-se filas enormes diante da porteira do sítio do prefeito, onde o Senhor Matreiro estava provisoriamente hospedado, com sua santa mulher. Todos queriam conselhos daquele mestre oculto, daquele orixá vivo, daquele enviado de Oxalá – mano mais velho de Ogum e padrinho de Iemanjá ... Os mais católicos assimilaram-no a um santo, e já tramitava nos bastidores burocráticos do Vaticano um processo de canonização. Os judeus haviam lhe concedido o título de rabino honorário, os espíritas reverenciavam-no como o Grande Consolador.

Quando o Abaitolá ficou pronto, o Senhor Matreiro mudou-se de imediato para lá. Na festa de inauguração subiu em um palanque, armado para o discurso:

— Minha gente! Hoje eu vou contar, pela primeira vez desde que regressei dos labirintos do além, a história de minha morte...

Um burburinho de gravidade percorreu a multidão. O Senhor Matreiro – o “homem que regressara” – ia permitir, finalmente, que todos soubessem algo sobre o outro lado da vida...

— Quando eu morri, fui acordar ao lado de um anjo. Não vou perder tempo descrevendo suas enormes asas ou sua espada de fogo – vou direto ao assunto. O Querubim me levou para um passeio aéreo, sobre uma vasta área do Paraíso. Era um espaço muito verde – cheio de uma vegetação celestial que não se conhece aqui na Terra. Uma pintura! Era respirar aquele ar puríssimo e dava gosto ter morrido. Fora as praias, montanhas, campos floridos e cachoeiras de água límpida – o que se possa imaginar! Olhei com atenção e vi uns edifícios – formidáveis obras de arquitetura. E havia outros sendo construídos ainda – puros mas promissores “esqueletos”, mal saídos das plantas de engenharia. Perguntei ao anjo:

— Mano-de-asas, que edifícios são aqueles? Quem vai morar neles?

— Caçula, aqueles apartamentos estão reservados para os que morrerem futuramente...

Pousamos em um patamar, de onde dava prá ver todo o enorme conjunto habitacional que cortava o Paraíso Celeste. O anjo continuou:

— Há alguns anos temos tido problemas de habitação, aqui no Céu. As pessoas têm morrido aos montes, sem nenhum controle de mortalidade, e muitas vezes não há moradia para todos. Resultado: Muitos acabam tendo que improvisar suas habitações ao relento, sob a cobertura dos viadutos que cortam o Céu. Outros são obrigados a emigrar para o Purgatório, mesmo sendo bons o suficiente para o Paraíso.  Mano, o problema da habitação é um caso sério, aqui no Céu. Mas parece que agora encontraram a saída. Vê esses formidáveis conjuntos habitacionais? — Agora haverá casas para todos! Minto... Infelizmente, ainda não há lugar para todos. Mas haverá lugar para bastante gente ...

— Mas quem serão os escolhidos?

— É aí que você entra, caçula! Deus o escolheu para ser o seu “agente imobiliário” – para usar uma expressão dos seres humanos. Você foi incumbido de vender, no Planeta Terra, todos esses apartamentos. Bem-aventurados aqueles que adquirirem suas escrituras... terão um bom lugar os aguardando, quando morrerem!

Dito isto, o Querubim me passou as escrituras de quase trezentos mil apartamentos magníficos, para que eu os revendesse na Terra. Depois me reconduziu ao meu corpo, que a essa altura dos acontecimentos já ia sendo velado. Entrei pelos olhos, sem que ninguém me visse – ao fim do quê o Querubim me fechou novamente na matéria. Acordei, coberto de flores. Minha santa mulher mal podia conter as lágrimas de felicidade quando me viu ressuscitar dentre os mortos!


*

Os primeiros a comprar apartamentos celestiais foram o Coronel Legório e o Turco Rachide. Legório era um fazendeiro da área, que durante a maior parte da vida dedicara-se ao aprimoramento dos prazeres mundanos. Dizia-se que promovia todos os sábados, religiosamente, verdadeiras orgias em sua fazenda de cacau. Mas desde que a velhice chegara tinha resolvido reservar as manhãs de domingo para a prática do temor a Deus – ia à missa como todo mundo, assistia às festas da Igreja, contanto que essas não caíssem no sábado, dia sagrado e consagrado à prática de libertinagens.  Rachide era dono de armazém, patrão de dois pretos extremamente idosos que se lembravam com saudade dos tempos da escravidão. Não era figura muito querida em Salamandra, dado que era a práticas como a de misturar água ao leite e ainda vendê-lo mais caro.

Esses dois ilustres tinham combinado que seriam vizinhos no Paraíso. Compraram dois belíssimos apartamentos, com vistas para o mar de nuvens que se estendia para além do infinito. O Coronel Legório pagou à vista. Já era dono de algumas propriedades aqui no mundo dos vivos. Agora teria terras também no Céu. O Turco Rachide assinou um contrato para pagamento em suaves prestações. Quis saber se também havia propriedades à venda no Purgatório e no Inferno. O Senhor Matreiro foi categórico: “Só trabalho para o Todo-Poderoso! Bem que o Diabo andou me oferecendo uns empregos... Mas meu negócio é com Deus”.

Depois começaram a surgir dezenas de compradores. A maioria adquiria seus imóveis à prestação. Muitos dos edifícios ainda estavam sendo construídos – mas quando morressem já estariam prontos. Receberiam as chaves no ato da sua morte!

A notícia de que estavam sendo vendidos apartamentos no Paraíso correu mundo. 

Afluíram para Salamandra do Norte centenas de fiéis, ateus e franco-atiradores – à procura do Senhor Matreiro. O Santo os recebia em seu modesto abaitolá. Dos pobres aceitava pequenas quantias, dos ricos exigia grandes fortunas. “De cada um, segundo a sua capacidade...”, costumava dizer. O importante, mesmo, era que cada um adquirisse o seu imóvel. (Dizia-se que até o Santo Papa, o ministro de Deus, estava pensando com muita seriedade em adquirir uma suíte no principal edifício celeste. Ainda não viera à Salamandra do Norte, para conhecer o Senhor Matreiro, porque faltava uma autorização das bases do Vaticano. Uma bobagem burocrática! Mas já se podia contar com ele — e também com todos os seus assessores.)

O fato é que, cinco anos depois da inauguração do empreendimento, o Senhor Matreiro já tinha vendido quase duzentos mil imóveis do Céu. Dizem que àquela altura já era um dos homens mais ricos do planeta. O Prefeito também se tornara uma pessoa ilustre – um político proeminente! Já acumulava cargos elevadíssimos no governo, tornando-se inclusive um sério candidato à presidenciável da república. A ascensão política lhe fora fácil, depois que recebera o apoio econômico e moral do Senhor Matreiro. Este, curiosamente, tornara-se um poderoso latifundiário – dono de numerosas propriedades aqui na Terra. O santo homem, enquanto vendia apartamentos e terrenos do Paraíso, ia adquirindo – muito a contragosto – uma fabulosa fortuna material, além de centenas de terrenos neste mísero planeta. Tinha se incumbido da árdua tarefa de transformar a riqueza material – dos outros homens – em riqueza espiritual! Permitia, às vezes, que estes trocassem suas miseráveis fazendas e imóveis terrenos por sublimes e celestiais apartamentos na Terra de Deus. Vendera para um político de renome um apartamento no principal condomínio do Paraíso – permitindo assim que este se tornasse um futuro vizinho do próprio Jesus! Era um homem, como se pode ver, digno do projeto de santificação que tramitava nos porões do Vaticano.

E apesar de tudo era um homem simples. Levava uma vida quase retirada. A população do lugar raramente tinha a felicidade de vê-lo caminhando pelas ruas.


*

Um dia, Santa Tereza viu o marido – triste – sentado no terraço do Abaitolá. Tinha os olhos fixos no céu estrelado (uma noite belíssima). Olhava, mais precisamente, a Lua. O Satélite ainda causava certa influência naquela figura extraordinária. Dona, digo, Santa Tereza – adivinhou os pensamentos que lhe iam pela cabeça:

— Ainda pensando nessas bobagens, querido?

O santo virou-se para a esposa:

— Veja só, Terê, a estupidez de toda essa gente! Quando eu lhes disse a verdade, fui perseguido, injuriado, apedrejado. Consideraram-me um louco, um subversivo – só porque lhes disse o que não queriam ouvir. E veja agora: depois que passei a contar as mentiras que eles queriam, fui transformado no homem mais rico e respeitado do hemisfério. A humanidade, Terê, não é capaz de encarar a sua verdade – mas está sempre pronta a pagar para que lhe conservem na ignorância.

— Amor! Já não tínhamos concordado que aquela história da Lua era uma alucinação sua? Já não tínhamos combinado que, doravante, só iríamos dizer às pessoas, o que elas quisessem ouvir? Então...

— Eu sei, Terê... Mas às vezes, em noites de luar tão claro, minhas lembranças daqueles pesadelos tornam-se tão nítidas que quase volto a acreditar nelas! A Lua ainda me assusta...

De repente, ouviu-se um barulho. Surgiu no terraço , vindo não se sabe de onde, um doido. Tinha os olhos esbugalhados, uma embriaguez de profeta bíblico. O Senhor Matreiro prestou atenção na sua fisionomia. Lembrou-se. Era o mesmo fanático religioso que o agredira, há anos atrás, durante a sua controvertida entrevista para uma emissora de TV – quando ainda era conhecido como “Professor Dino”. Ouviu quando o louco — com os olhos faiscantes de raiva – lhe disse:

— Seu herege! Procurei-te por toda a parte! Pensaste que ias conseguir te esconder sob um novo nome, e sob esta roupa estranha? Pensaste que tuas blasfêmias ficariam impunes? Em nome de Deus! Tu vais morrer,  coisa ruim.

O doido tinha nas mãos uma pistola velha. Santa Tereza, desesperada, desceu as escadas do terraço para chamar os seguranças. Voltou com dois gorilas. Mas era tarde! O corpo do Senhor Matreiro jazia, sem vida e sem esperança de retorno, no chão aberto. O doido desaparecera. Havia um bilhete, escrito com uma caligrafia alucinada:

— Foi a vontade de Deus!

Nada mais a fazer, um dos seguranças aproximou-se e fechou os olhos da vítima. Cobriu-a com um pano branco. Notadamente branco – efeito do luar muito claro que se derramava sobre o terraço do Abaitolá.  Amanhã, bem cedinho, sairiam as manchetes. Seriam feitas reportagens de página inteira sobre a enigmática figura do Senhor Matreiro, assassinado brutalmente como todos os mártires – como todos os grandes homens. E à noite, o mundo poderia chorar a morte do santo...


*

O Senhor Matreiro  já conhecia, naturalmente, a morte. Pois não fora graças a ela que fizera fortuna? Pôde seguir tranqüilo, o se próprio enterro. Terê ia, chorando, logo atrás do caixão – em cujas alças alguns amigos seguravam.  Observou, num vislumbre, que a procissão que o acompanhava era enorme! Muitos ali eram proprietários de imóveis do Paraíso ... Riu. Se aqueles tolos soubessem que tinham comprado os seus sonhos ... Súbito lembrou-se de si mesmo! Tinha morrido, com atestado de óbito e tudo! O que o esperava agora? Por certo não era o Jardim das Delícias, que vendera – em pequenas partidas – a toda aquela gente. O que, então? Mal teve tempo de focalizar o pensamento naquela questão crucial, quando avistou – ao longe – duas aparições. Pôde constatar, surpreso, que um era ele mesmo. Mais precisamente – o Professor Dino! O outro era o albino, de olhos penetrantes, que encontrara há muitos anos – na saída de uma emissora de TV. O lunático disse, com um tom de ironia:

— Trago-lhe aqui um velho amigo seu... O Professor Dino!

E desapareceram, antes que ele pudesse esfregar os olhos. Foi aí que ele percebeu que, por alguns, estivera sonhando. Até ali seu subconsciente inventivo lhe pregava peças! Viu que àquela altura a multidão que acompanhava o seu corpo tinha se distanciado bastante, deixando seu espírito sozinho – naquele mundo sem mortos nem vivos. Ao mesmo tempo ele não era mais – apenas – o Senhor Matreiro. Era também o Dino, o Professor, e todas as demais personalidades que vestira em sua existência terrena! Mas não diminuía em nada a sua solidão o fato de ele ser três ou quatro pessoas ao mesmo tempo. Ia começar a se sentir o único solitário da Terra quando ouviu um estranho chamado, vindo do alto. Olhou para cima e viu a Lua ...

Quando se deu por si, já estava próximo do Satélite. Era, precisamente, o ponto exato em que fora interrompida sua primeira viagem – por ocasião da sua morte inicial. Olhou em volta, medroso. Viu uma multidão de almas que, junto com ele, eram absorvidas pelo imã lunar. Tentou debater-se, escapar à influência que o absorvia. Inútil. A Lua aproximava-se devagarzinho, com suas crateras e desertos gelados. Ouviu o gemido dos milhões de almas aprisionados no minério – no “queijo” lunar. O inferno vinha. Vieram todas as lembranças de já ter percorrido aquela trajetória antes. Mas da outra vez não passara daquele ponto, já que a certa altura começou a ser puxado para trás – até acordar no meio das suas próprias flores, do seu próprio velório. Agora não! A Lua continuou a atraí-lo, para seu desespero. Tudo se encaixava tão bem com o que se lembrava da sua primeira aventura, parecendo ser a continuação natural desta, que já lhe era impossível saber se estava de fato em sua “segunda morte”, ou se simplesmente estivera delirando, naqueles segundos terríveis. Tinha sonhado que retornara à vida, que ressurgira dos mortos, que ficara célebre com suas histórias fantásticas, que se tornara o Senhor Matreiro, que vendera imóveis do Paraíso para milhares de tolos – e que, por fim, fora assassinado... Mas não! Talvez (nunca saberia ao certo) seu subconsciente tivesse fabricado aquelas lembranças, para distraí-lo naqueles instantes insuportáveis que o separavam da sua chegada ao inferno.

A pedra que fora reservada para o seu suplício ficava, por ironia, no que os astrônomos chamavam de ‘o mar da tranqüilidade’. Foi absorvido pelo minério, incorporou-se a cada um de seus átomos. Havia perto um módulo de metal, pedaço de algum foguete russo. Já estava ocupado por duas ou três almas. Os espíritos que – como ele – iam chagando, eram imediatamente chupados pelas rochas e crateras. Ali iriam esperar, até que sua memória se extinguisse, como se armazenados em um frigorífico enorme. Depois seriam digeridos pelo astro.

O Planeta Terra, visto dali, seria para qualquer homem vivo uma imagem belíssima. Mas não para os mortos – para os chicletes de lua!  Para eles representava o que tinha se perdido, o leite derramado. E o que se perderia ainda... Ali dormia uma humanidade que sequer suspeitava do seu terrível destino. Homens mecânicos, falando um bilhão de línguas diferentes. Babel. Dona Tereza, Terê, Santa Tereza... cada ser humano escondia uma pluralidade de personalidades, cada uma delas condenada ao mesmo fim. O planeta Terra... Ali se faziam, naquele instante, revoluções populares. Guerras. Escreviam-se livros. Construíam-se edifícios. Inventavam-se religiões, cada uma assegurando aos seus fiéis a vida eterna. Tudo mecanicamente – e ninguém se apercebia disso. Rebanho de formigas...

A alma que fora o Dino, o Professor e o Senhor Matreiro, estava agora mergulhada nos seus delírios.  Precisava fabricar imagens que dessem uma forma ao seu sofrimento.  Alguns de seus colegas de infortúnio, nos minérios ao lado, sonhavam com Deus e o Diabo – imaginavam caldeirões de enxofre e pequenos demônios que os fustigavam, comprimiam os olhos que já não tinham, pura energia que eram, na esperança de ao descerrá-los vislumbrarem os paraísos que em vida lhes foram prometidos. Somente os animaizinhos e as plantas, esses seres irracionais, aceitavam sem nenhuma dor ou trauma a sua breve vida mineral, à espera da aniquilação. Era, enfim, um matadouro muito mais suave do que qualquer um dos que os homens tivessem um dia inventado. Já os seres humanos, os racionais, estavam todos presos aos seus fantasmas, aos seus diabos, à sua consciência outrora arrogante. Davam forma ao seu sofrimento. Ele, o Sr. Dino-Matreiro, preferiu fabricar algo mais sofisticado do que aquelas figuras dantescas. Julgou ouvir passos. Pensou ver uma sombra, por trás de uma rocha. Fixou-se na figura, meio humana, que criara. Um focinho enorme, uma língua elástica. O monstro apanhou alguns pedaços do queijo lunar, que iria mastigar como chicletes. Virou-se na sua direção. Lambeu sua estrutura rochosa. Ainda não estava boa – precisava antes esgotar toda a sua soma memória. Voltaria depois – não tinha pressa. Tudo ali era seu. Até o módulo do foguete russo. Os astronautas que ali o deixaram, há alguns atrás, nem imaginaram que a Lua era habitada por um bilhão de almas. E por um imenso tamanduá ...




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José D'Assunção Barros doutor em História pela UFF, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. autor de vários livros, entre os quais "O campo da História", "Cidade e História" e "A construção social da cor".


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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